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Argentina

Sem mudanças já, haverá mais sangue

Fabricio Vieira

Ricardo Rouvier, analista político, diz que novo governo precisa adotar medidas urgentes

BUENOS AIRES - A revolta do povo argentino, que foi sentida nas ruas do país nos últimos dias, apenas hiberna. Se o novo governo, que passou a comandar a Argentina após a decisão de Fernando de la Rúa de renunciar à Presidência na noite de quinta-feira, não tomar medidas radicais que alterem o atual panorama econômico e social, protestos, saques e conflitos voltarão.
Essa é a percepção do analista político argentino Ricardo Rouvier, que falou com a Folha minutos após Rodríguez Saá ser anunciado como o novo presidente do país vizinho.
Mas Rouvier faz um alerta: "Se esse governo justicialista [o partido do novo presidente" não cuidar para que haja mudanças logo, haverá mais sangue".
A seguir, os principais trechos da entrevista de Rouvier.
Folha - A população tomou as ruas da Argentina na última semana e enfrentou a polícia sob o então vigente estado de sítio para exigir a renúncia do presidente Fernando de la Rúa. Sete pessoas morreram pela repressão policial nos confrontos de quinta-feira. Com a queda de Fernando de la Rúa, os ânimos dos manifestantes se acalmaram. O novo governo pode enfrentar em breve novos e violentos protestos?
Ricardo Rouvier
- A ira dos argentinos que invadiram as ruas pedindo a renúncia de Cavallo [ex-ministro da Economia, que abandonou o governo na noite de quarta-feira" e de De la Rúa está apenas em repouso. O novo governo necessita de mudanças urgentes e radicais para que não voltem às ruas argentinas os saques, os protestos, o vandalismo e mesmo novas mortes. O povo se fortaleceu.

Folha - Os protestos e os conflitos presenciados nos últimos dias tiveram a resposta esperada pelos argentinos?
Rouvier -
Exato. Agora a população sabe que os atos de força e até mesmo de violência, que caracterizaram os eventos da última semana, deram resultado. Nem mesmo o estado de sítio conseguiu detê-la.
E continuará exigindo mudanças sempre que o sentimento de abandono e exploração extrapolarem os limites suportáveis.

Folha - Essas mudanças se concentram principalmente no campo econômico?
Rouvier -
Tem de haver transformações urgentes na área de assistência social. O desemprego é recorde. São mais de 2,5 milhões de argentinos sem emprego, além dos outros milhões de pessoas que têm apenas subempregos, ganhando salários miseráveis. A questão social se tornou tão grave que a renúncia de De la Rúa era inevitável. Se esse governo justicialista [o partido do novo presidente Rodríguez Saá, mais conhecido como peronista, é o Justicialista" não cuidar para que haja mudanças logo, haverá mais sangue.

Folha - Mas o projeto de orçamento do próximo ano prevê mais de US$ 9 bilhões em ajustes fiscais. De onde virão os recursos para uma maior assistência à população?
Rouvier -
Acredito que a primeira coisa que esse governo fará é decretar a moratória. Não há mais como nem por que insistir fingindo que a Argentina pode evitar cair em "default" [dar calote". Ninguém mais acredita nessa fábula. O governo deve canalizar os últimos recursos que chegarem a seus cofres para os projetos sociais. Chega de ficar gastando as últimas gotas do caixa para pagar juros de uma dívida que todos sabem que não será paga.

Folha - Com o calote, as possibilidades de crédito no mercado financeiro internacional se fecharão por anos...
Rouvier -
A Argentina já está abandonada, afogada. A preocupação dos novos homens que têm o país nas mãos deve se concentrar nos apelos internos. Do contrário, poderemos ter um agravamento do terrível cenário que fomos obrigados a presenciar nos últimos dias.

Folha - O próximo passo seria a desvalorização do peso, que tantos analistas já apontam como inevitável? Se o caminho da desvalorização for escolhido, não há o risco de retornar a inflação e punir ainda mais os argentinos?
Rouvier -
Não acredito que a desvalorização possa trazer de volta um dos maiores temores dos argentinos, que é a inflação. A recessão castiga o país há 43 meses, não crescemos, não há emprego. Com uma situação desse tipo, como os preços poderiam começar a subir descontroladamente, como no fim da década de 80?
O argentino empobreceu, a classe média, que já foi o símbolo deste país, quase desapareceu. Quem saiu espontaneamente nas ruas na quarta-feira, batendo panelas em protesto e pedindo a queda do presidente e de seu ministro da Economia? Foi essa classe média sufocada, quase em extinção.

Folha - O abandono da conversibilidade [regime cambial vigente no país há uma década, pelo qual um peso vale um dólar] pode ajudar a Argentina a sair desse ciclo perverso de recessão, desemprego e empobrecimento?
Rouvier -
Acredito que sim. O problema é que não há tantas decisões possíveis no momento, e a mudança é um imperativo. A desvalorização do peso pode ser benéfica especificamente para o agonizante Mercosul. O comércio entre o Brasil e a Argentina pode ser beneficiado e isso é necessário para podermos falar em fim da recessão, para o povo poder ter um pouco mais de esperança.

Entrevista publicada  na Folha de S.Paulo

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