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"Se vão matar, que façam rapidamente"

Henry Kissinger em junho de 1976

Maurício Santana Dias

Videla admite assassinato de opositores
Biografia do ex-presidente revela atrocidades do regime militar

Os argentinos já se preparavam para relembrar com resignação e sem novidades os 25 anos do golpe militar, ocorrido em 24 de março de 1976, quando na última segunda-feira a publicação do livro "El Dictador" (Sudamericana) veio lançar novas luzes sobre o período da ditadura (1976-1983) e mexer com a memória do país.
Escrito pelos jornalistas María Seoane e Vicente Muleiro, o livro narra a história do ex-general Jorge Rafael Videla (1925), o homem que depôs Isabelita Perón da Presidência da República e governou a Argentina com mão-de-ferro nos primeiros anos do regime.
O impacto de "El Dictador" foi tão grande que o livro esgotou no mesmo dia em que chegou às livrarias, na segunda passada. Não era para menos. Pela primeira vez em mais de 15 anos de silêncio o ex-presidente, que hoje cumpre prisão domiciliar em um modesto apartamento de Buenos Aires, voltou a se pronunciar sobre os tempos da ditadura, admitindo que sempre "soube de tudo" -isto é, da execução dos cerca de 30 mil "desaparecidos"- e que não se arrependia de nada.
Baseado em três entrevistas com Videla, feitas em agosto de 98 e março de 99, e no depoimento de 120 testemunhas, "El Dictador" confirma muito do que já se sabia e desvenda alguns casos que permaneciam obscuros, como o desmonte dos campos clandestinos de prisioneiros (ação batizada pelos militares de "Natal feliz").
Um dos pontos altos do livro é o relato de como a Junta Militar chefiada por Videla chegou à "solução final", isto é, o plano sistemático de extermínio dos opositores ao regime que foi posto em ação entre meados de 1977 e março de 78, e cujo principal centro de operações era a Esma (Escola de Mecânica da Marinha).
Na reconstituição da "era Videla", Seoane e Muleiro tratam também das relações entre os vários governos militares da América do Sul, incorporando novas informações sobre a chamada Operação Condor (de cooperação entre as ditaduras do Cone Sul).
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Entrevista com a autora María Seoane

Folha - O que o livro traz de novo?

María Seoane - Esta é a primeira vez que um ex-ditador reconhece o assassinato dos desaparecidos, mortos na Escola da Marinha, nos rios da Prata e do Riachuelo. Além disso, fica claro que todas as lideranças militares sabiam e estavam de acordo sobre isso. Até então Videla e os militares que participaram da ditadura sempre negaram tudo, inclusive quando foram a julgamento em 1985.

Folha - Como foram recolhidas as informações que estão no livro?

Seoane - Eu e Muleiro, auxiliados por dois jovens jornalistas, fizemos uma pesquisa durante cerca de quatro anos. Entrevistamos 120 testemunhas, de amigos de infância de Videla a gente que participou do governo, incluindo diplomatas e políticos importantes.
A princípio tínhamos a decisão de não entrevistar Videla, mas, após três anos de trabalho, resolvemos fazer três entrevistas. Os encontros foram em sua casa em agosto de 98 e março de 99, quando ele já estava cumprindo prisão domiciliar. A partir daí, incluímos seus depoimentos no livro, que é uma história da ditadura e a história pessoal do ditador.

Folha - Videla confirma o assassinato dos desaparecidos? O Exército teria uma lista dos mortos?

Seoane - Ele não chegou a mencionar nenhuma lista, mas falou que os sequestrados foram jogados no mar, no rio da Prata e no Riachuelo. Ao falar que "sabia de tudo", Videla quis dizer que estava a par de tudo o que ocorria em seu governo, que a repressão ilegal era feita sob o seu comando.

Folha - Qual a sua versão a Operação Condor? Como é citada a participação do Brasil nesse episódio?

Seoane - Com relação ao Brasil, verificamos como os ex-presidentes Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo colaboraram com Videla em certos aspectos da Operação Condor, apesar da hostilidade que havia naquele momento entre os dois países. Videla cita o acordo de cooperação entre ele e Geisel e diz como foi delegada a tarefa de coordenação aos chefes argentinos, chilenos e paraguaios. Ao Brasil a coordenação coube ao general João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI.

Folha - A CIA teve de fato participação na Operação Condor?

Seoane - Sim, a atuação da CIA é confirmada por Videla, e nós temos material que o comprova. Por exemplo, um documento que registra uma das primeiras reuniões no Chile da Operação Condor, no qual ela é chamada de "Special Operation Forces". Além disso, Henry Kissinger (ex-secretário de Estado dos EUA) é diretamente envolvido como um dos que apoiaram os assassinatos. Kissinger disse em junho de 1976 ao então chanceler argentino, almirante Montes: "Se vão matar, que façam rapidamente".

Folha - Em que momento os militares decidiram matar os sequestrados? Quem foram os responsáveis diretos por essa decisão?

Seoane - Em fins de maio de 1977, quando já se discutia a possível sucessão de Videla e se preparava o cenário para a Copa do Mundo de Futebol, houve uma reunião de chefes das Forças Armadas em que se optou pelo extermínio em massa dos sequestrados políticos, que naquele momento estavam sendo torturados em campos de concentração montados na Esma e em outras bases. A "solução final" partiu fundamentalmente do próprio Videla. Essa operação de massacre dos prisioneiros e de desmonte gradual dos campos de concentração -que durou até cerca de março de 1978, às vésperas da Copa- era o que os militares chamavam de "Natal feliz".

Folha - Houve divergências entre os membros da Junta Militar? Como eram as relações entre Videla e Emilio Massera (chefe da Marinha)?

Seoane - Videla e Massera divergiam em muitos pontos, mas houve um acordo de base sobre a repressão ilegal, na qual se assentava a ditadura. Mas eles tinham estilos e projetos políticos distintos. Videla nos confessou que desejava ser o herdeiro do regime militar, queria eleger-se presidente de um governo civil como general da reserva. Já Massera tinha outro projeto, que denominamos de "terropopulismo". Com os sequestrados da Esma, que eram na maior parte "montoneros" (membros da extrema esquerda peronista), ele pretendia formar uma espécie de inteligência e seduzir setores do peronismo.

Houve ainda divergências quanto à política econômica. Videla foi um "orgânico" dos setores dominantes, nomeando Martínez de Hoz (tradicional empresário argentino) para seu ministro da Economia. Massera teve menos influência nesse campo, embora tenha se beneficiado pessoalmente com o regime.

Folha - Por que Videla, que desde os julgamentos de 1985 manteve silêncio, decidiu falar agora?

Seoane - Ele falou porque o livro era inevitável -e Videla queria dar a sua versão dos fatos.

Folha - Mas o jornal "La Nación" de anteontem publicou uma carta dele negando as afirmações que o livro lhe atribui...

Seoane - Na carta Videla não desmente as entrevistas, simplesmente nega ter dito o que disse. Ratificamos ponto por ponto o que está no livro, porque temos testemunhas e documentos que comprovam as afirmações.

Folha - A publicação do livro pode desencadear uma nova onda de processos contra militares?

Seoane - É o que esperamos, já que nele Videla reconhece tudo o que havia negado à Justiça em 1985, inclusive envolvendo muitos dos seus ex-colegas de farda.

Transcrito da Folha de S.Paulo

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