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A crise da classe média

O Clip Pirata, desde sua viagem inaugural, leva a bordo o pensamento do professor Milton Santos. Como em março de 2000, com este artigo originalmente publicado no Jornal dos Economistas.

As classes médias brasileiras, parecem agora desafiadas para o desempenho de uma importante tarefa histórica, na reconstituição do quadro político nacional.

O antes, ...

Milton Santos

Entre as muitas explosões das classes médias, no período do chamado milagre econômico, acompanha, neste meio século, a explosão demográfica, urbana e a do consumo e do crédito.
Tal conjunto de fenômenos tem relação estrutural com o aumento da população industrial e agrícola, como também do comércio, dos transportes, das trocas de todos os tipos, das obras públicas, da administração e da necessidade de informação.
Como a modernização capitalista tende ao esvaziamento do campo e é sempre seletiva, uma parcela importante dos que se dirigiram às cidades não pôde participar do círculo maior da economia, deixando de incluir-se entre os assalariados formais  só encontrando trabalho no circuito inferior, impropriamente chamado de setor "informal".

... o durante, ...

Vale realçar que a classe média se expande sem que houvesse verdadeira competição dentro dela quanto ao uso dos recursos que o mercado ou o Estado lhe ofereciam para melhorar o seu poder aquisitivo e o seu bem-estar material.
Todos iam subindo juntos, embora para andares diferentes.
Mas, todos das classes médias estavam cônscios de sua ascenção social e esperançosos de conseguir ainda mais.
Daí, sua relativa coesão e o sentimento de se haver tornado poderoso estamento.

A competição foi, na realidade, com os pobres, cujo acesso aos bens e serviços torna-se cada vez mais difícil, na medida em que estes se multiplicam. Os programas governamentais para a aquisição da casa própria exemplificam isto.

A classe média foi a grande beneficiária do crescimento econômico, do modelo político e dos projetos urbanísticos adotados.

O sentimento de inclusão, tratava-se, na realidade, de uma moeda de troca, já que a classe média constituía uma base de apoio às ações do governo.

Tal classe média, ao mesmo tempo em que se diversifica profissionalmente, aumenta seu poder aquisitivo e melhora qualitativamente, através de oportunidades de educação que lhe são abertas, tudo isso levando à ampliação de seu bem-estar (o que hoje se chama de qualidade de vida), conduzindo-a a acreditar que a preservação das suas vantagens e perspectivas estava assegurada. Tudo o que alimenta a classe média dá-lhe, também, um sentimento de inclusão no sistema político e econômico, e um sentimento de segurança, estimulado pelas constantes medidas do poder público em seu favor.

Forma-se, dessa maneira, uma classe média sequiosa de bens materiais, a começar pela propriedade, e mais apegada ao consumo que à cidadania, sócia despreocupada do crecimento e do poder, com os quais se confundia. Daí a tolerância, senão a cumplicidade com o regime autoritário.

O modelo econômico importava mais que o modelo cívico.

Nessa lógica, as próprias esquerdas são levadas a dar mais espaço às preocupações eleitorais e menos à pedagogia propriamente política.

Eram essas, aliás, condições objtivas necessárias a um crescimento econômico sem democracia. Quando o regime militar esgota o seu ciclo, a democracia se instala incompletamente na década de 1980, guardando todos esses vícios de origem e sustentando um regime representativo falsificado pela ausência de partidos políticos conseqüentes. A gênese e as formas de expansão das classes médias brasileiras têm relação direta com a maneira como hoje se desempenham os partidos.

Tal situação tende agora a mudar, quando a classe média começa a conhecer a experiência da escassez, o que poderá levá-la a uma reinterpretação de sua situação. Nos anos recentes, e já agora de modo mais sistemático e continuado, a classe média conhece dificuldades que lhe apontam para uma situação existencial bem diferente da de anos atrás.

Tais dificuldades chegam num tropel: a educação dos filhos, o cuidado com a saúde, a aquisição ou o aluguel da moradia, a possibilidade de pagar pelo lazer, a falta de garantia no emprego, a deterioração dos salários, a poupança negativa e o crescente endividamento estão levando ao desconforto quanto ao presente e à insegurança quanto ao futuro, tanto o futuro remoto quanto o imediato. Tais incertezas são agravadas pelas novas perspectivas da Previdência Social e do regime de aposentadorias, da prometida reforma dos seguros privados e da legislação do trabalho. A tudo isso se acrescenta, dentro do próprio lar,a apreensão dos filhos em relação ao seu futuro profissional  e as manifestações cotidianas desse desassossego.

Como não mais encontram os remédios que lhe eram oferecidos pelo mercado ou pelo Estado como solução aos seus problemas individuais emergentes, as classes médias ganham a percepção de que já não mandam, ou de que já não mais participam da partilha do poder.

Acostumadas a atribuir aos políticos a solução dos seus problemas, agora proclamam seu descontentamento, distanciando-se deles.  Elas já não se vêem espelhadas nos partidos, e por isso se instalam num desencanto mais abrangente quanto à política propriamente dita. Isso é justificado, em parte, pela visão de consumidor desabusado que elas alimentaram durante décadas, agravada com a fragmentação pela mídia, sobretudo a televisiva, da informação e da interpretação do processo social.

A certeza de não mais influir politicamente é fortalecida nas classes média, levando-as, não raro, a reagir negativamente, isto é, a desejar menos política e menos participação, quando a reação correta poderia e deveria ser, exatamente, a oposta.

... e o depois, ...

Não importa que esse momento de tomada de consciência não seja geral, nem igual para todas as pessoas. O importante é que se instale.

A atual experiência de escassez pode não conduzir imediatamente à desejável expansão da consciência.  E, quando esta se impõe, não o faz igualmente nas pessoas. Tal processo pode ter, inicialmente, a preocupação de defender situações individuais ameaçadas e que se deseja reconstituir, retomando o consumo e o conforto material como o principal motor de uma luta, que, desse modo, pode se limitar a novas manifestações de individualismo. É num segundo momento que tais reivindicações, fruto da reflexão mais profunda, podem alcançar um nível qualitativo superior, a partir de um entendimento mais amplo do processo social e de uma visão sistêmica de situações aparentemente isoladas.

O passo seguinte leva à decisão de participar de uma luta pela sua transformação, quando o consumidor assume o papel de cidadão.

... para um grande final.

As classes médias brasileiras, agora mais ilustradas e, também, mais despojadas materialmente, têm nesta passagem do século, a tarefa histórica de forçar os partidos a completar no Brasil, o trabalho, ainda não terminado, de implantação de uma democracia que não seja apenas eleitoral mas, também, econômica, política e social.

Seja como for, as classes médias brasileiras, já não mais aduladas, feridas de morte nos seus interesses materiais e espirituais, constituem, em sua condição atual, um dado novo da vida social e política. Mas, seu papel não estará completo enquanto não se identifique com os clamores dos pobres, contribuindo juntos para o rearranjo e a regeneração dos partidos, inclusive os partidos do progresso.

Dentro destes, são muitos os que ainda aceitam as tentações do triunfalismo oposicionista - sempre que as ocasiões se apresentam - e se rendem ao oportunismo eleitoreiro, limitando-se às respectivas mobilizações ocasionais, desgarrando-se, assim, do seu papel de formadores não apenas da opinião mas da consciência cívica, sem a qual não pode haver política verdadeira neste país.

A experiência da escassez, é desse modo, um dado fundamental na aceleração da tomada de consciência.

Nas condições brasileiras atuais, as novas circunstâncias podem levar as classes médias a forçar uma mudança substancial do ideário e das práticas políticas, que incluam maior responsabilidade ideológica e a correspondente representatividade político-eleitoral dos partidos.

Milton Santos foi professor emérito de Geografia Humana da USP. Recebeu o prêmio internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1994.
 Jornal dos Economistas é órgão oficial do Corecon-rj, Ierj e Sindecon-rj .

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