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Bourdieu - Sim e não. É verdade que o discurso que eu desenvolvi para a televisão
teve bem menos efeito do que transcrição publicada sob forma de livro. Mas trata-se de uma crítica pelo discurso (e que foi ao ar em horas de audiência muito baixa, à noite) e não de uma crítica pela imagem
como eu poderia ter feito com a ajuda de profissionais de cinema - como Pierre Charles, autor de um filme intitulado Pas vu à la télé (Não passou na TV), que teve um enorme
sucesso onde foi exibido -, ou simplesmente se eu tivesse podido mostrar na TV as imagens que eu comentava no meu discurso, ou construir todo um filme com exemplos de coisas vistas na televisão. |
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Seria, pois, preciso servir-se dos recursos da televisão (e mesmo de todo o talento que certos publicitários desenvolvem a serviço da venda de
produtos) para desmontar e criticar os abusos do poder cometidos a cada dia na televisão, não necessariamente de maneira intencional ou perversa, mas, mais freqüentemente, por ignorância ou por
inadvertência. Você me dirá que, na televisão mesmo (não sei se vocês têm isso no Brasil) há programas que fazem isso. |
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De fato, é uma falsa crítica, que não toca em nada de sério - a prova é o fato de que o filme de Pierre Charles, que questionava a integridade dos
grandes responsáveis da televisão e sobretudo suas conivências com os políticos, foi proibido na TV. Este simulacro inofensivo de crítica é destinado, uma vez mais, a criar audiência dando satisfação a uma
demanda confusamente sentida pelo público. |
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Não é por acaso que as telenovelas se dividam em "rurais" e "urbanas". Mais do que contrastar as duas realidades,
servem para homogeneizá-las num mesmo código. O decisivo é que, ao contrário da vida real, esteja estabelecido nas novelas um espaço comum, um círculo de convivência em que os contrastes não sejam
necessariamente chocantes, em que todos, do rico ao pobre, do capiau ao clubber , estejam submetidos à mesma lógica - a do clichê, ou, como dizem atualmente, a da "dramaturgia". Marcelo Coelho Folha de S.Paulo |
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