Mas antes de se esvair, o regime de 64 conseguiu seu maior triunfo contra o trabalhismo, roubando a sigla do Partido Trabalhista
Brasileiro de seu herdeiro legítimo, Leonel Brizola, que retornava do exílio. O "PTB" perdeu sua profundidade histórica e o próprio lastro trabalhista, virando hoje, um "nome de fantasia" como outro qualquer. Desse
modo o trabalhismo saiu da vida e entrou para a história. Saiu? Em termos. O aspecto mais vigoroso do trabalhismo, a afirmação da classe trabalhadora como agente político e dona de um destino, criadora da riqueza
nacional, migrou para a construção e a história do Partido dos Trabalhadores. Isso pode soar uma heresia aos ouvidos petistas, ou mesmo dos que militam à sua esquerda. Afinal o PT, junto com a CUT, nasceu de uma crítica
ao trabalhismo, à ingerência do Estado na vida sindical, bem como à tradicional política de conciliação dos comunistas. Já o PDT não conseguiu firmar uma identidade em nível nacional: ao contrário, serviu apenas de
alicerce para que se afirmasse, mais uma vez, o estilo caudilhesco de seu líder primeiro e único, Leonel Brizola. Desse modo o trabalhismo saiu da vida e entrou para a história. Saiu? Em termos. O aspecto mais
vigoroso do trabalhismo, a afirmação da classe trabalhadora como agente político e dona de um destino, criadora da riqueza nacional, migrou para a construção e a história do Partido dos Trabalhadores. Isso pode soar uma
heresia aos ouvidos petistas, ou mesmo dos que militam à sua esquerda. Afinal o PT, junto com a CUT, nasceu de uma crítica ao trabalhismo, à ingerência do Estado na vida sindical, bem como à tradicional política de
conciliação dos comunistas. Se isto é verdade, é verdade também que o principal instrumento da liderança nas greves que marcaram o declínio da ditadura foi o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, hoje do ABCD.
Ao mesmo tempo Metalúrgicos e Bancários exerceram durante muito tempo uma certa hegemonia na Central Única de Trabalhadores, que, assim como o PT, emergiu das lutas de começos da década de 80. Quem visitou as sedes de
tais sindicatos, a dos Metalúrgicos em São Bernardo e a dos Bancários em São Paulo ou em outras cidades, se deu certamente conta da máquina que representam. Isso quer dizer que sem CLT, sem Vargas, sem "populismo", sem
"trabalhismo", tais sindicatos não seriam o que foram e são, nem existiria a CUT do jeito que é. Poderia ser de outro modo? Nessa altura, descortinar um outro modo é fazer ficção científica sobre o passado e o presente.
Também é verdade que programas e líderes petistas incluíam o socialismo em suas declarações até bem pouco tempo atrás, como algumas tendências no partido prosseguem fazendo. Mas de fato, uma vez no poder,
administrações petistas põem em prática políticas social-democratas avançadas. Isso acontece até mesmo em administrações como as de Porto Alegre e Belém, em que preponderaram tendências à esquerda no espectro
partidário, como, respectivamente, a Democracia Socialista e a Força Socialista. Enquanto o PT esteve restrito a administrar prefeituras ou alguns governos de Estado, isso se explicava pela pouca parcela
de poder que tais administrações de fato têm. Mas agora, em 2004, quando o partido ocupa o Palácio do Planalto, vê-se que o que de melhor poderá fazer será uma espécie de New Deal
mitigado, isso se conseguir romper o círculo de ferro da adesão à administração da herança neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso. Por seu turno a CUT deve mais ao ideário e ao modelo de organização dos sindicatos alemães e italianos, de inspiração social-democrata, do que a qualquer outra plataforma de idéias. E agora, na presente circunstância, com o "seu" partido na Presidência da República, terá de andar no fio da navalha para não se tornar mera correia de transmissão das políticas de governo, acusação que já é feita à sua direção pelas tendências mais à esquerda da entidade.
A conquista e manutenção da prefeitura de Porto Alegre, pelo menos por dezesseis anos até 2004, revela uma sugestão interessante para o pensamento. A implantação do Orçamento Participativo tornou-se uma referência
mundial e, em grande parte, é responsável pela continuidade das vitórias das administrações da Frente Popular liderada pelo PT. Mas essa implantação se deu através da junção do esforço administrativo com a rede de
associações de bairro, sindicatos e outras organizações, rede esta que se estende pela cidade inteira. Pois essa rede é uma herança dos tempos trabalhistas, e foi por ela que o Orçamento Participativo deixou de ser um
princípio, como ocorre em algumas outras cidades, para tornar-se uma realidade e uma conquista dos porto-alegrenses. Simbolicamente, ao se constituírem, PT e CUT reivindicaram a palavra mágica cunhada por Vargas,
motivo central da emergência e manutenção do estilo caudilhesco na política: "trabalhadores". O mesmo fez o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Não por acaso, as práticas do MST nasceram no Rio Grande do
Sul, berço da prática e da doutrina trabalhista. Foi lá também que o então governador (1958-1962) Leonel Brizola implantou um primeiro projeto de reforma agrária e criou uma organização de camponeses que é tida como
precursora do MST. A exposição da herança e da dívida histórica para com os caudilhos trabalhistas que o PT, malgré soi-même, carrega, encontrou seu ponto fulcral na eleição de 1989. Ali Brizola viu
o Waterloo
de seu sonho de chegar à Presidência da República. Tirou-lhe o sonho não Collor, o futuro vencedor; mas Lula, o então futuro derrotado, por uma diferença em torno de 500 mil votos, na corrida para o segundo turno. Ali mesmo, no calor da derrota, Brizola estendeu-lhe a mão deu-lhe o apoio político, o que garantiu a Lula a vitória no Rio Grande do Sul, praticamente contra todo o resto do Brasil. Foi um gesto político e calculado? Sem dúvida. Mas foi um gesto em que ressoavam a tradição, a sobranceria, o personalismo e também a cortesia pessoal de que eram capazes os antigos caudilhos. Ali se pode ver um gesto emblemático, um rito de passagem, que se sobrepõe a desavenças posteriores. Se o presidente Lula e o seu Partido estarão à altura desse gesto e de tal herança, isto ainda está por se saber.
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