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Brizola vive!

Mauro Santayana e Flávio Aguiar

His life was gentle, and the elements So mix'd in him that Nature might stand up
And say to all the world: "This was a man!"

Sua vida foi digna, e as forças nele Eram tais que a Natureza a se erguer
Diria ao mundo: "Este era um homem!"

Marco Antonio sobre Brutus
William Shakespeare, Julius Caesar.

O líder trabalhista cometeu todos os erros políticos que pode cometer um homem público, mas ninguém o excedeu em patriotismo.
 A
exposição da herança e da dívida histórica para com os caudilhos trabalhistas que o PT carrega encontrou seu ponto fulcral na eleição de 1989. Ali Brizola viu ruir seu sonho de chegar à Presidência. O responsável por isso não foi Collor, o futuro vencedor, mas Lula.

Leonel Brizola, patriota

Ao seguir para o exílio no Uruguai, em 1984, disse duas coisas importantes aos que fugiam da Ditadura.

Leonel Brizola cometeu todos os erros políticos que pode cometer um homem público, mas ninguém o excedeu em patriotismo. Dele guardo, como a mais forte das recordações, a de sua chegada a Montevidéu, em maio de 1964, depois de atravessar a fronteira – já bastante fria, naquele tempo – vestido com uma japona militar. Era, então, um jovem de 42 anos, que já cumprira toda uma biografia política e percorrera invejável trajetória pessoal.

Dois dias depois de sua chegada, reunia-se aos exilados, para dizer-lhes duas coisas importantes. A primeira delas era a de que, em conseqüência do golpe, não havia ali diferenças. Éramos todos brasileiros no exílio, qualquer tivesse sido a nossa situação no governo que caíra, o que nos impunha solidariedade natural entre todos. A segunda era a sua esperança: nós voltaríamos. Não iríamos morrer no exílio. Nem todos voltamos, porque a morte – e isso ocorreu agora, com ele mesmo – não envia intimações, nem a Eternidade nos convida marcando o dia e a hora do encontro.

Jorge Eliécer Gaytan, o grande líder colombiano, era um arrebatado orador que, em seus discursos, repetia sempre que não era um homem, mas um povo. Yo no soy un hombre, soy un pueblo. Brizola poderia dizer de si mesmo que não era um homem, era uma pátria.

Embora houvesse mantido contatos, durante toda a vida, com organizações de esquerda do mundo inteiro, e fosse grato, aos povos e estadistas que lhe deram acolhida, durante os anos de exílio (como foi o caso da esquerda norte-americana), Brizola nunca deixou de ser intransigente nacionalista. Quando muito admitia, como Bolívar, uma pátria grande que reunisse os povos latino-americanos.

O político gaúcho, com toda a sua ironia contra os adversários, era um sonhador e homem de boa fé. A última vez que estivemos um tempo maior juntos foi em Conceição do Mato Dentro, no casamento de José Fernando, filho de José Aparecido de Oliveira. Disse-lhe, então, com alguma franqueza, que ele criara muitos adversários, lançando figuras menores na vida pública e as elegendo pela primeira vez. Lembrei o velho ditado espanhol, crea cuervos y ellos le picarán los ojos. Os exemplos são tão numerosos que não vale a pena citá-los.

Brizola sempre viu o interesse nacional acima de sua natural ambição pelo poder. Convém recordar, embora não seja agradável para muitos, a proposta que fez, publicamente, a Lula, no desastrado pleito que elegeu Fernando Collor. Ele pressentiu que se ele e Lula renunciassem às respectivas candidaturas, em favor de Mário Covas, o político paulista chegaria ao segundo turno e venceria as eleições. O estado-maior de Lula fez que não ouviu a sugestão do líder gaúcho – e deu no que deu.

Foi um beau geste, uma vez que ele e Lula estavam bem próximos um do outro nas intenções de voto, durante a primeira fase da campanha, e todos sabemos que, em política, muitas vezes um candidato, com sua renúncia, transfere mais votos do que realmente tem. Há sempre uma simpatia para quem demonstra renúncia, e suas recomendações costumam ter efeito na opinião pública.

No túmulo de Brizola o epitáfio pode ser simples: Leonel Brizola, patriota, 1922 – 2004.

Ao ler este texto, lembro que assisti recentemente no programa Olhar 2004, da TVE, um papo entre Milton Temer (PSOL), Noel de Carvalho (ex-PDT) e Alexandre Cardoso (PSB), sobre eleições presidenciais nesta inacreditável terra de Vera Cruz.
Lá pelas tantas Alexandre Cardoso iniciou com um comentário sobre as eleições de 1989.
Noel de Carvalho insinuou que a eleição era do Brizola.
Temer lembrou que as urnas de Minas Gerais não chegavam e perguntou se o que o Noel estava dizendo era que o Sistema havia beneficiado o Lula.
Noel de Carvalho disse que era isso mesmo que ele estava querendo dizer.
Lula foi para o segundo turno e deu no que está dando.
Bem, o negócio começou lá atrás, quando o mago Golbery do Couto e Silva entregou a sigla do PTB à Ivete Vargas. Essas recordações ajudam a entender como, agora "a vero", o "Sistema" continua o fiel escudeiro a nos entalar de superávits primários, qualquer que seja o gerente de plantão.
Numa atualização cármica, eis que em 2005 sai das entranhas deste PTB transgênico, via o gongórico Roberto Jefferson, petardo que implode o PT ao revelar as ligações perigosas com o "empresário" Marcos Valério e as conexões paulistas em Santo André, Campinas e Ribeirão Preto, ratificando a premunição de Darcy Ribeiro quando disse que "o PT é a UDN de tamancos".
                                                                                       
Cap Grumari

Mas antes de se esvair, o regime de 64 conseguiu seu maior triunfo contra o trabalhismo, roubando a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro de seu herdeiro legítimo, Leonel Brizola, que retornava do exílio. O "PTB" perdeu sua profundidade histórica e o próprio lastro trabalhista, virando hoje, um "nome de fantasia" como outro qualquer.
Desse modo o trabalhismo saiu da vida e entrou para a história. Saiu? Em termos. O aspecto mais vigoroso do trabalhismo, a afirmação da classe trabalhadora como agente político e dona de um destino, criadora da riqueza nacional, migrou para a construção e a história do Partido dos Trabalhadores. Isso pode soar uma heresia aos ouvidos petistas, ou mesmo dos que militam à sua esquerda. Afinal o PT, junto com a CUT, nasceu de uma crítica ao trabalhismo, à ingerência do Estado na vida sindical, bem como à tradicional política de conciliação dos comunistas.
Já o PDT não conseguiu firmar uma identidade em nível nacional: ao contrário, serviu apenas de alicerce para que se afirmasse, mais uma vez, o estilo caudilhesco de seu líder primeiro e único, Leonel Brizola.

Desse modo o trabalhismo saiu da vida e entrou para a história. Saiu? Em termos. O aspecto mais vigoroso do trabalhismo, a afirmação da classe trabalhadora como agente político e dona de um destino, criadora da riqueza nacional, migrou para a construção e a história do Partido dos Trabalhadores. Isso pode soar uma heresia aos ouvidos petistas, ou mesmo dos que militam à sua esquerda. Afinal o PT, junto com a CUT, nasceu de uma crítica ao trabalhismo, à ingerência do Estado na vida sindical, bem como à tradicional política de conciliação dos comunistas.

Se isto é verdade, é verdade também que o principal instrumento da liderança nas greves que marcaram o declínio da ditadura foi o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, hoje do ABCD. Ao mesmo tempo Metalúrgicos e Bancários exerceram durante muito tempo uma certa hegemonia na Central Única de Trabalhadores, que, assim como o PT, emergiu das lutas de começos da década de 80. Quem visitou as sedes de tais sindicatos, a dos Metalúrgicos em São Bernardo e a dos Bancários em São Paulo ou em outras cidades, se deu certamente conta da máquina que representam. Isso quer dizer que sem CLT, sem Vargas, sem "populismo", sem "trabalhismo", tais sindicatos não seriam o que foram e são, nem existiria a CUT do jeito que é. Poderia ser de outro modo? Nessa altura, descortinar um outro modo é fazer ficção científica sobre o passado e o presente.

Também é verdade que programas e líderes petistas incluíam o socialismo em suas declarações até bem pouco tempo atrás, como algumas tendências no partido prosseguem fazendo. Mas de fato, uma vez no poder, administrações petistas põem em prática políticas social-democratas avançadas. Isso acontece até mesmo em administrações como as de Porto Alegre e Belém, em que preponderaram tendências à esquerda no espectro partidário, como, respectivamente, a Democracia Socialista e a Força Socialista.

Enquanto o PT esteve restrito a administrar prefeituras ou alguns governos de Estado, isso se explicava pela pouca parcela de poder que tais administrações de fato têm. Mas agora, em 2004, quando o partido ocupa o Palácio do Planalto, vê-se que o que de melhor poderá fazer será uma espécie de New Deal mitigado, isso se conseguir romper o círculo de ferro da adesão à administração da herança neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso. Por seu turno a CUT deve mais ao ideário e ao modelo de organização dos sindicatos alemães e italianos, de inspiração social-democrata, do que a qualquer outra plataforma de idéias. E agora, na presente circunstância, com o "seu" partido na Presidência da República, terá de andar no fio da navalha para não se tornar mera correia de transmissão das políticas de governo, acusação que já é feita à sua direção pelas tendências mais à esquerda da entidade.

A conquista e manutenção da prefeitura de Porto Alegre, pelo menos por dezesseis anos até 2004, revela uma sugestão interessante para o pensamento. A implantação do Orçamento Participativo tornou-se uma referência mundial e, em grande parte, é responsável pela continuidade das vitórias das administrações da Frente Popular liderada pelo PT. Mas essa implantação se deu através da junção do esforço administrativo com a rede de associações de bairro, sindicatos e outras organizações, rede esta que se estende pela cidade inteira. Pois essa rede é uma herança dos tempos trabalhistas, e foi por ela que o Orçamento Participativo deixou de ser um princípio, como ocorre em algumas outras cidades, para tornar-se uma realidade e uma conquista dos porto-alegrenses.

Simbolicamente, ao se constituírem, PT e CUT reivindicaram a palavra mágica cunhada por Vargas, motivo central da emergência e manutenção do estilo caudilhesco na política: "trabalhadores". O mesmo fez o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Não por acaso, as práticas do MST nasceram no Rio Grande do Sul, berço da prática e da doutrina trabalhista. Foi lá também que o então governador (1958-1962) Leonel Brizola implantou um primeiro projeto de reforma agrária e criou uma organização de camponeses que é tida como precursora do MST.

A exposição da herança e da dívida histórica para com os caudilhos trabalhistas que o PT, malgré soi-même, carrega, encontrou seu ponto fulcral na eleição de 1989. Ali Brizola viu o Waterloo de seu sonho de chegar à Presidência da República. Tirou-lhe o sonho não Collor, o futuro vencedor; mas Lula, o então futuro derrotado, por uma diferença em torno de 500 mil votos, na corrida para o segundo turno. Ali mesmo, no calor da derrota, Brizola estendeu-lhe a mão deu-lhe o apoio político, o que garantiu a Lula a vitória no Rio Grande do Sul, praticamente contra todo o resto do Brasil. Foi um gesto político e calculado? Sem dúvida. Mas foi um gesto em que ressoavam a tradição, a sobranceria, o personalismo e também a cortesia pessoal de que eram capazes os antigos caudilhos. Ali se pode ver um gesto emblemático, um rito de passagem, que se sobrepõe a desavenças posteriores. Se o presidente Lula e o seu Partido estarão à altura desse gesto e de tal herança, isto ainda está por se saber.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).
Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.

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