Há uma convergência de princípio entre democracia e educação, e essa convergência é tal que até mesmo Bush concordaria com ela. Que
dificuldade, no entanto, se encontra na prática, quando o divórcio entre ambos aparece com tanta força? O professor francês Bernard Charlot, atualmente pesquisador convidado do CNPq, na Universidade Federal do Mato
Grosso do Sul (UFMS), fez, durante debate no III Fórum Mundial de Educação, recentemente encerrado, uma análise conceitual da relação entre educação e democracia, sob a tese de que é na escola pública de qualidade que
se pode assegurar a convergência real de ambos. Por mais evidente que possa parecer, essa tese tem sido posta de lado, em nome de demandas e expectativas sobre a escola "emancipadora", "inclusiva" e
muitas vezes em nome da afirmação pontual da diferença. O professor Charlot não recusa o respeito à diferença, à concessão de espaço e políticas concernentes à diversidade. Mas alertou para a condição em que políticas
públicas para a diversidade devem e podem fazer sentido.
Para sustentar, com o rigor do republicanismo francês, que "não há democracia sem escola pública forte", Charlot retomou alguns princípios já
clássicos, porém comumente esquecidos, dos fundamentos da noção moderna de cidadania. Mas qual é mesmo o fio que liga a educação com a democracia? Em primeiro lugar, lembrou Charlot, na mesa sobre "Juventude, Educação e
Democracia", "a democracia requer sufrágio universal, e o sufrágio universal exige conhecimento". A democracia, assim, é "o governo em que a palavra é livre, e não uma doutrina oficial". Essas
afirmações simples e claras, ensinadas em várias escolas, inclusive no Brasil, vêm sendo, segundo o professor, muito ameaçadas hoje. E a razão disso é a dissociação atual entre o conceito de cidadania e o de sujeito,
presente na cena pública.
Campanhas eleitorais sem palavras "Hoje, a palavra tem faltado. Isso é tão evidente que, nas campanhas eleitorais, contrata-se um "marketeiro" e, no lugar do debate de
idéias, de projetos, investe-se na imagem, nos sons, nas cores, dos candidatos". Debaixo de aplausos dos educadores e estudantes que acompanharam a mesa, Charlot provocou: "Vocês estão me aplaudindo, mas vocês
teriam votado se não fosse um "marketeiro"? E a culpa não é dos políticos, o problema é maior. Os políticos sabem que, se não investirem nessas coisas, dificilmente serão eleitos". O problema é que as campanhas,
assim, são feitas sem "palavras sérias", disse o professor. Essas palavras comporiam o único fio capaz de religar educação e democracia, tornando-as termos compatíveis e praticamente verificáveis. "A
democracia é o regime de governo do povo para o povo, segundo a lei. Isso significa fala, debate, confronto de idéias. Significa que a democracia deve ser a defesa do interesse geral".
Mas o interesse geral
não é a mesma coisa que a soma dos interesses individuais. E essa distinção, entre soma dos interesses individuais e interesse geral ou interesse público, que é um dos pilares da noção de democracia e também do conceito
de república, mereceu do professor Charlot toda atenção: "Enquanto indivíduo não quero pagar impostos. A soma dos interesses particulares não quer pagar impostos. Mas enquanto cidadão quero escolas, hospitais, ruas
calçadas. O cidadão está além das diferenças empíricas entre os indivíduos, assim como está além dos interesses particulares dos indivíduos". Essa distinção, trazida por Rousseau para o centro do debate iluminista,
envolve uma série de conseqüências práticas que muitas vezes são relegadas no debate político atual. E guarda também uma relação direta com a posição do aluno.
"O aluno está além do ser empírico que está
ali, em sala de aula, porque este indivíduo está sendo educado. Portanto, está ali como cidadão, não como uma contingência", sustentou Charlot. É assim que, segundo ele, "a educação é uma aposta no sujeito que
deve ser educado". Isso tudo, que é muito comumente compreendido como óbvio para todos os que já pensaram minimamente a educação e a democracia, é lembrado pelo professor com o propósito, muito objetivo, de
enfrentar o drama das crianças da periferia das grandes cidades, que vivem na miséria. "A imagem da criança da periferia é uma imagem quebrada", disse o professor. Essa imagem quebrada reflete, segundo ele, a
distância entre a escola, que deveria se ocupar da formação da cidadania mediante a educação, e a situação de miséria, de desamparo, desestruturação familiar em que estão essas crianças. Entre a ausência praticamente
total de qualquer parâmetro de agregação social, e a estrutura escolar, está a criança e o jovem que não consegue, para o professor, desfrutar da escola e aprender o que ela tem a ensinar. A educação, dessa forma, não
acontece.
A falácia da "igualdade de oportunidades" A situação dessa criança e desse jovem de periferia é o retrato da distinção que Bush, por exemplo, não faz, segundo o professor. E esse "retrato quebrado" ou essa
imagem partida, que aparece aos olhos das crianças e jovens desagregados socialmente, não pode ser restaurado com o discurso da igualdade de oportunidades, somente. "De um lado há um discurso da educação para todos.
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