Uma agenda antiga, mas que no caso do Brasil - como da maior parte da periferia capitalista mundial - significaria realizar em poucos anos o que tomou uma boa
parte dos séculos XIX e XX dos europeus, só se consolidando de fato, depois da II Guerra Mundial. Um longo processo de transformação e democratização das sociedades capitalistas européias, que Karl Polanyi chamou de A
Grande Transformação, na sua obra clássica publicada em 1944, em que faz um relato e uma interpretação absolutamente original sobre a crise que destruiu a "civilização liberal" do século dezenove, entre as
duas grandes guerras mundiais do século vinte. E sobre as forças profundas e de longo prazo, que levaram ao nascimento - depois da crise de 30 e das guerras - de um novo consenso econômico favorável ao crescimento e ao
pleno emprego, e de um novo consenso político favorável à construção dos estados de bem-estar social.Para explicar as origens desta "grande transformação", Karl Polanyi formula uma teoria sobre o
desenvolvimento das economias e sociedades de mercado, e sobre seus momentos de ruptura. Em poucas palavras, Karl Polanyi identifica a existência de um "duplo movimento" na história do capitalismo, resultado
da ação permanente e contraditória de dois princípios organizadores das economias e sociedades de mercado, cada um deles apontando para métodos e objetivos específicos. Um, seria o "princípio do liberalismo"
econômico, que propõe, desde as origens do sistema, a universalização dos mercados auto-regulados, através da defesa permanente do laissez-faire e do livre-comércio. E o outro, seria o princípio da "auto-proteção
social", uma reação defensiva que se articula historicamente " não em torno de interesses de classes particulares, mas em torno da defesa das substancias sociais ameaçadas pelos mercados" ( 1980 p: 164).
Muitos intérpretes de Polanyi leram sua tese sobre o "duplo movimento" das economias e sociedades capitalistas, como se fosse uma seqüência no tempo ou como se tratasse de um movimento pendular, através da
história. A visão de Karl Polanyi, entretanto, é mais dialética do que pendular, porque para ele, os dois princípios têm raízes materiais e sociais que convivem de forma necessária, permanente e contraditória dentro do
capitalismo. Os 'anticorpos', que acabam paralisando e corrigindo a expansão entrópica dos mercados auto-regulados, nascem de dentro da própria expansão mercantil, se manifestam esporadicamente nos interstícios do mundo
liberal, e acabam se fortalecendo com a destruição que a expansão desregulada dos mercados acaba provocando, no longo prazo, do trabalho, da terra, do dinheiro e da própria capacidade produtiva das nações. Além disto,
este princípio da "auto-proteção social" pode se manifestar de duas maneiras diferentes: i) dentro das sociedades nacionais, através de várias formas de democratização política e social, e da construção de
redes de proteção coletiva das populações; ii) e dentro do sistema internacional, na forma de uma reação defensiva dos estados que decidem proteger seus sistemas econômicos nacionais, em situações de crise ou de
competição desigual. No caso dos países europeus, e no período histórico analisado por Polanyi, estes dois movimentos de auto-proteção convergiram, invariavelmente, devido a permanente competição inter-estatal
européia e ao lugar central das guerras nestas competições. Segundo Polanyi, o desafio externo tende a diluir as fronteiras de classe estimulando várias formas de solidariedade e consciência nacional, como aconteceu
entre 1914 e 1945, momento em que se criaram as bases para o maior choque distributivo e democratizante da história do capitalismo Mas depois de 1945, as políticas voltadas para o pleno emprego e para a proteção publica
e universal das populações, só foram possíveis graças a autonomia concedida às políticas econômicas nacionais, pelo controle da circulação internacional dos capitais acordado em Bretton Woods, em 1944, uma verdadeira
heresia na época de ouro da "civilização liberal", entre 1840 e 1914. Na virada do século XXI, a história parece querer repetir-se. Como se o mundo tivesse vivido uma nova "civilização liberal",
depois de 1970, e ela também estivesse entrando em crise. De novo, em poucas décadas, se reproduziu o mesmo processo de concentração da riqueza e do poder que levou à corrida e às guerras imperialistas dos séculos XIX e
XX. E guardadas as diferenças, os tambores de guerra já voltaram a soar, anunciando o retorno do "poder das armas" ao epicentro do sistema mundial. Ao mesmo tempo em que o mundo enfrenta uma crise financeira e
de crescimento, e se multiplicam as formas de protecionismo das grandes potências econômicas. |