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Falta o Diálogo das Civilizações

 

Há 20 anos um argelino e um francês lutam pela utopia da linguagem universal

Esta matéria foi inserida, de forma permanente, no ClipPirata número 15, às 16:45 hs do dia  5 de dezembro de 2000. Portanto, 279 dias, 17 horas e 3 minutos antes do atentado ao World Trade Center,  às 8:48 hs do dia 11 de setembro de 2001.

Qualquer apresentação de Roger Garaudy aos leitores é supérflua e além do mais não tenho uma qualificação especial para fazê-lo. Tanto o homem como a obra recomendam-se por si mesmos à simpatia do leitor, notadamente por uma fidelidade e uma coerência permanentes nos objetivos e engajamentos.

Roger Garaudy dedicou a maior parte de sua existência ao diálogo das civilizações e à reabilitação daquelas que a história ocidental, por demasiado tempo ingrata, ignorou. Especialmente a proximidade do Maghreb e a injusta desnaturação da mensagem do Islã no contexto colonial induziram Roger Garaudy a consagrar-se mais à reabilitação do Islã.

Na Argélia ocupada

Mohammed Bedjaoui

Ao ler sua obra, Promessas do Islã, pensei em nossa adolescência de colegiais argelinos, num lugarejo de Oranie. Era 1948. Um homem dirigiu-se a nós. Veio derrubar o Muro. O que cruelmente nos separava de nossa cultura nacional de que o colonialismo nos havia privado e sem a qual qualquer outra cultura estrangeira, por mais rica, por mais prestigiosa que fosse, não podia fazer de nós senão reféns, perdidos paa os nossos e para os outros. Privados de nossa cultura, de nossa língua nacional, de nossa civilização própria, acolhemos com um agradecido fervor esse homem - esse era um homem -, esse "estranho" - era um estranho? -, que nos fazia levantar o véu que escondia nossa cultura tornada estranha em sua própria terra. Numa época em que havia certo perigo em desafiar um colonialismo tão triunfante e tão arrogante na Argélia, esse homem de coragem fazia com que nos reconciliássemos conosco mesmos, para nos ajudar a superar nossa aculturação e desde então abria um diálogo de civilizações. Ele vinha não para saber por nós mesmos o que somos, e que o colonialismo encarniçava-se em fazer-nos esquecer, mas sim para ajudar-nos a  preservá-lo ou a redescobri-lo. Ele vinha apoiar-nos em nosso combate tenaz contra a aculturação. Vinha testemunhar que queríamos, devíamos, permanecer nós mesmos. Esse homem chamava-se Roger Garaudy.

O bloqueio ao diálogo das civilizações

Com Promessas do Islã, Roger Garaudy dirige-se a um público não-muçulmano que ele quer livrar de seus antolhos e de seus preconceitos. É, portanto, a mesma forma de combater que ele persegue para romper todas as barreiras e contribuir para a promoção de uma autêntica civilização universal.

Mas a mensagem será recebida? O diálogo das civilizações a que dedicamos o mais alto apreço, pois garante a paz e o progresso de nosso mundo pesadamente hipotecado.

A abertura de um tal diálogo exige, na verdade, que certas condições sejam preenchidas. Vejo precisamente três que designam muito naturalmente as três hipotecas que bloqueiam tal diálogo. Elas mostram por que as civilizações que não são ocidentais, como a civilização árabe-islâmica, para cujo conhecimento Roger Garaudy contribuiu tanto, são voluntariamente marginalizadas pela "civilização materialista industrial".

A hipoteca histórica e moral

A obra de Garaudy vem em primeiro lugar opor-se a uma hipoteca histórica e moral. O mundo não aprendeu nada em cinco mil anos. Ele segregou uma cultura de mandarins e de elite inacessível aos povos que continuam a ignorar-se soberbamente. Esse fato é particularmente perceptível no Ocidente. No próprio interior de cada nação, proliferam imensos desertos culturais, avizinhando-se de um ou dois oásis de prosperidade cultural. Para cada nação coloca-se assim um problema de desenvolvimento do homem, do homem todo e de todos os homens. Mas se deslocamos nosso olhar para as relações entre nações, o problema parece ainda mais grave e se situa em termos de imperialismo cultural histórico.

Quando as velas da Europa inflaram-se ao vento das conquistas e das descobertas geográficas e foram fundados impérios colonais, esse feito expansionista nutriu-se de "justificações" morais, pois cada período histórico segrega seus próprios álibis. Assim foi inventada a "missão civilizadora".

O colonialismo ultramarino destinava-se, diziam, a disseminar as luzes da fé, quando o que ele fazia era mergulhar os povos nas trevas da escravatura. A colonização dos três "M", dos Mercadores, dos Militares e dos Missionários, não teve nenhum respeito pelas culturas autóctones, nem mesmo pelos próprios povos soberanos e em sua condição de povos civilizados.

Desse universo mutilado, resta alguma coisa nos tempos modernos. Nosso período contemporâneo, com suas contradições, os retornos ofensivos do imperialismo, e as vitórias mais ou menos duráveis dos povos, seria inintelígível sem tais lembranças. Pois, ainda hoje, o imperialismo cultural grassa, levado pelo imperialismo econômico e político, e levando-se eles mesmos. O que sabemos com efeito, na Europa ou na América do Norte, do Islã e da civilização árabe? As mentalidades lá apresentam assustadores abismos. Pelo menos nos comportamentos psicológicos, continuamos ainda Cruzados uns para os outros.

Conseqüência da vaga imperialista que nos planos político, econômico e cultural submergiu o mundo desde os séculos do expansionismo colonial, o homem do Ocidente aparece culturalmente como um "insular". É preciso compreender bem que seu fechamento às outras culturas do mundo representa uma condição inerente à dominação econômica e política que ele exerce sobre esse mundo.Sua impermeabilidade às outras civilizações o enclausura em certezas fáceis, oportunamente prontas para alimentar um reflexo de superioridade tão necessário ao projeto de dominação econômica e política. Nesse avanço rigoroso e coerente, o ocidental só podia ignorar os outros: realmente, "como se pode ser persa"? O mesmo cuidado de coerência que provoca a insularidade cultural do ocidental exige dele que imponha esse modelo aos outros homens do planeta. A insularidade para si encontra-se inevitavelmente acompanhada de um imperialismo cultural em relação aos outros. O que é bom para o ocidental parece-lhe bom para o planeta inteiro.

O etnocentrismo ocidental justifica desse modo sua pretensão imperialista por uma concepção unilateral da civilização. Levado por um "narcisismo cultural" inveterado, o Ocidente não parou de representar o agressor em relação às outras culturas e às outras civilizações do mundo.

A hipoteca econômica

É perfeitamente claro que essa hipoteca moral e histórica não é senão o desdobramento de uma hipoteca econômica. A história mostra, com efeito, de modo superabundante, que não existe exemplo de hegemonia econômica que não seja acompanhada, consolidada e levada por uma hegemonia cultural.

A era dos Faraós, a Antiguidade grega, o Mediterrãneo romano, a Europa dos Médicis, ou a dos conquistadores, produziram historicamente um tipo de cultura diretamente ligada à dominação econòmico-política. É incontestável que existem causas econômicas para o imperialismo cultural planetário, para a recusa do diálogo das civilizações e para os preconceitos que condenam ao ostracismo a mensagem do Islã, do budismo, ou de qualquer outra civilização não-ocidental.

Podemos, devemos até, ir mais longe. A reestruturação do capitalismo mundial faz-se acompanhar hoje de uma potente e perigosa tendência para homogeneizar as mentalidades através do mundo. Com efeito, as barreiras de ordem cultural ou lingüística constituem obstáculos para a extensão dos mercados a uma escala rendosa. É o motivo pelo qual as sociedades multinacionais procuram, além das fronteiras, condicionar todos os homens para obter a nivelação e uniformização de seus reflexos de consumidores. A aculturação torna-se então uma condição preliminar ao bom desenrolar das operações comerciais planetárias das sociedades multinacionais. Cria-se assim, às vezes com a cumplicidade mais ou menos inconsciente de certas elites locais, estatutos de "protetorados" econômico-culturais.

Assim é perfeitamente claro que existe uma relação dialética entre o imperialismo e a recusa do diálogo cultural. O diálogo das civilizações não existe pois o imperialismo existe e o imperialismo existe pois o diálogo das civilizações não existe. O diálogo das civilizações é uma ilusão porque o imperialismo é uma realidade e o imperialismo é uma realidade porque o diálogo das civilizações permanece uma ilusão.

Visto desse ângulo, o empreendimento ao qual se dedicou há vários decênios, Roger Garaudy é, ao mesmo tempo, modesto e imenso. Modesto, pois o imperialismo sempre presente paralisa esse diálogo das civilizações que Roger Garaudy nutre e estimula permanentemente. Mas também imenso, pois  esse diálogo corajoso e tenaz, fará justamente esse imperialismo recuar pouco a pouco.

A hipoteca política

Mas uma terceira hipoteca pesa bastante sobre um tal diálogo. É de ordem política. Como dir-se-á, instaurar realmente um diálogo das civilizações quando se desenvolvem guerras, tensões, conflitos latentes ou declarados entre os povos? Essa realidade política é exatamente o contrário do diálogo, que ela contribui para bloquear. A renovação atual do Islã faz-se inevitavelmente acompanhar, aqui e acolá, por algumas excrescências políticas, talvez contestáveis, mas denunciadas com demasiada precipitação pelo imperialismo, tão pronto a não dar quartel e a condenar a totalidade, para conservar sua posição dominante assim ameaçada. Isso basta para criar e manter o bloqueio político, para aferrolhar o necessário diálogo das civilizações. A obra de Garaudy convida-nos a perseverar na busca de um tal diálogo, precisamente por causa dessas situações políticas conflituosas, para vencê-las, extingui-las e ultrapassá-las, se não preveni-las.

Eis aí as hipotecas, alinhadas em forma de desafios para um diálogo autêntico das civilizações. Mas, ainda se pode fazer outras perguntas: por que o diálogo e por que o diálogo agora?

Certamente a renovação das ideologias religiosas no Terceiro Mundo, e em especial na área islâmica, a reafirmação às vezes violenta das identidades nacionais, os desafios lançados aqui e acolá aos modelos ocidentais, assim como um certo despertar do Oriente substituindo o Ocidente na iniciativa histórica que este detinha há séculos, tudo isso pode pôr na ordem do dia as mensagens das "outras" civilizações, logo, a do Islã. Mas, na verdade, a tais fatores deveria correlativamente juntar-se um outro mais poderoso ainda, que se deve à própria situação do Ocidente.

O impasse no Ocidente

Estabelecer um diálogo parece ter-se tornado tanto mais imperativo para o Ocidente na medida em que este experimenta hoje a necessidade de sair de seu próprio impasse cultural. O projeto cultural sobre o qual viveu o mundo ocidental  e que se traduz por um comportamento, uma ética e um modo de pensar imperialistas parece próximo de ter cumprido sua função histórica. Fundado na impossível perseguição do crescimento numa terra com recursos agora limitados, o modelo cultural ocidental, que criou a sociedade de consumo , o culto do crescimento e, afinal de contas, uma civilização de tubo digestivo, chega ao impasse. Ele terá criado um mundo onde em breve será muito difícil viver, já explosivo e apanhado na armadilha, cuja crise todos estamos convocados a gerir.

Esse impasse cultural foi assim descrito por Roger Garaudy em seu Apelo aos Vivos: "As palavras refletem a desintegração dessa cultura, a paz chama-se doravante 'o equilíbrio do terror', a traição dos povos chama-se 'segurança nacional', a violência institucional chama-se 'ordem', a concorrência da selva chama-se 'liberalismo', o conjunto dessas regressões chama-se 'progresso'.

O Terceiro Mundo

Mas também nós, do Terceiro Mundo, temos ainda mais necessidade desse diálogo. Nossas carências culturais são para nós mais mortais que nossas dramáticas carências alimentares. Nossa cultura terá sido envilecida pelo colonialismo. Devemos livrar-nos do mimetismo cultural, do "metamorfismo de contato", da sobreposição de instituições importadas, inertes sobre nosso corpo social vivo, da decalcomania dos modelos estrangeiros que realizamos preguiçosamente. Esse diálogo das civilizações, que reclamamos com veemência, representa, em sua autenticidade, uma amplificação das duras interpelações do Terceiro Mundo, que teve de recorrer às revoltas e às violências para romper a antiga ordem injusta.

Uma das condições para o sucesso desse diálogo é ser e permanecer autêntico. Isso significa o fim do mimetismo do dominador para o colonizado e a possibilidade, para este último, de "reunir seu céu e sua terra", segundo a bela fórmula de Jacques Berque. Cada parceiro desse diálogo tem um nome a carregar e a defender, uma identidade a reconquistar, a preservar ou a enriquecer. Cada um deve sentir um  orgulho de ser, ao mesmo tempo em que deve sentir humildade para aceitar o que os outros são. Esta é uma condição essencial de um "dar e receber" fecundo. Desse ponto de vista, Promessas do Islã é um cartão de visita pelo qual Roger Garaudy apresenta um de seus interlocutores, o Islã, a esse diálogo das civilizações.

A globalização neoliberal

Mas parece que a reivindicação de uma identidade nacional própria, ou de uma vinculação a uma área determinada, ganha cores de anacronismo nesses tempos de mundialização das ideologias, das economias e das culturas e numa época em que se aspira a uma civilização do universal. Além do mais é preciso ser esse "viajante sem bagagens" caro a Arthur Koestler, liberto das pesadas ligações culturais nacionais, para poder realizar a comunicabilidade num verdadeiro diálogo planetário. É o momento de ser claro.

Não houve, até os dias de hoje, mundialização da cultura de outro modo senão sob os ditames das sociedades multinacionais e das economias dominantes que tentam impor sua uniformização cultural com fins comercais. Mas, além disso, o internacionalismo cultural não tem nenhuma relação como ersatz de cultura supranacional dominada por dois ou três gigantes.

O compromisso ...

O apego à sua própria civilização permanece uma condição indispensável para o internacionalismo cultural. Para ser "internacional", é preciso em primeiro lugar ser "nacional": em matéria de cultura é ainda mais verdadeiro. É preciso em primeiro lugar ter sua cultura nacional, para abrir-se sobre uma civilização do universal. É preciso em primeiro lugar ter um "lar", para poder receber os outros.

... para um árduo e maravilhoso porvir

É claro, a esperança de ver um dia os homens em condições de inventar uma civilização inédita, a do universal, acalenta sempre nossos sonhos. Mas essa esperança passa por nós mesmos. A linha divisória da cultura nacional e das contribuições universais passa pelo interior de cada um de nós. É a esse preço e nesse momento que saberemos transformar as interdependências sofridas em solidariedades ativas e organizadas, criar as complementaridades e as simbioses culturais, redescobrir ou reinventar as solidariedades permanentes, sem cair na falsa solidariedade do cavaleiro e da montaria. Então saberemos recusar as ideologias sectárias, as crenças estreitas, ativistas e agressivamente marcadas de proselitismo, os pactos coloniais e neocoloniais, os imperalismos culturais e os modelos dominadores e sufocantes. Saberemos, enfim, guardar a distância necessária em relação à espuma e ao marulho irrisório dos acontecimentos.

Mohammed Bedjaoui
Embaixador, representante permanente da Argélia junto a ONU (1979-1982)
Membro da Corte Internacional de Justiça, em Haia, desde 1982
Presidente da Corte (1994-1997)
Atualmente é  juiz da Corte.

Este texto é prefácio do livro de Roger Garaudy
Promessas do Islã
Editora Nova Fronteira, 1981
Tradução de Edison Darci Heldt

 

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