Assumo solitário declinando das homenagens Poderia alegar minha condição de fundador do partido, muito antes que muitos que hoje desfrutam do poder a ele tivessem chegado. Mas não me interessa glorificar nem heroicizar
minha posição: abomino as instituições de herança aparentadas ao capitalismo e declino das homenagens. Partido é uma associação de cidadãos livres para um projeto coletivo de poder, na definição clássica, baseada em
alguma experiência comum, de qualquer natureza, mas sobretudo de classe. Não é uma questão afetiva, embora ao longo dos anos muitos laços afetivos importantes tenham se construído. Quando a liga que faz o partido, o
projeto coletivo de poder para transformação da sociedade no sentido do socialismo, e de mobilização da sociedade para tanto, se esgota, então é hora de deixá-lo. As amizades, se forem sólidas e para além do partido,
continuarão. Sem negociar uma postura crítica Tampouco me movem ressentimentos, como áulicos novos e antigos intrigam na corte de Brasília. Qualquer dos intrigantes, na corte ou alhures, está desafiado a relatar qualquer
conversa que eu tenha tido a respeito de cargos ou funções no governo. Salvo Paulo Vannuchi, e ele --tendo sido portador de uma mensagem do já eleito, mas ainda não empossado presidente, em que este dizia que os cargos
de primeiro escalão teriam que ser negociados, mas para qualquer cargo do segundo escalão, nas áreas de minha competência e preferência, bastava eu escolher-- sabe de minha pronta recusa. Abriu no meu escritório, em
conversa reservada que ele pediu, um imenso organograma do Estado brasileiro, para localizar cargos ou funções de minha escolha. Pedi-lhe que fechasse o organograma e dissesse ao presidente que eu nunca iria para
qualquer cargo governamental, mesmo o mais importante, pois a missão do intelectual é exercer a crítica. Foi a mesma conversa que havia tido com ele dois anos antes na casa do professor Antonio Candido, quando Marta
Suplicy se elegeu prefeita de São Paulo, e o hoje presidente mandou dizer igualmente que queria que eu escolhesse o cargo. E ele teve a mesma resposta que lhe dei dois anos depois. Que foi a mesma resposta que dei à
companheira --sim, companheira-- deputada Luiza Erundina, quando se elegeu prefeita de São Paulo e convidou-me pessoalmente, por telefone, ela mesma no aparelho, para ser seu secretário de Planejamento. Declinei e
indiquei o professor Paul Singer. Que terminou sendo o excelente secretário de Planejamento de Luiza Erundina; sem jactância, certamente ajudei Luiza a fazer a escolha, com que São Paulo ganhou um de seus melhores
secretários dos últimos tempos. O governo já disse a que veio
Muitos acharão precipitada a decisão, na convicção de que o governo Lula ainda está em disputa. Não é o meu caso: o governo Lula nunca terá a hegemonia, apenas a
formação de maiorias "ad hoc", sem nenhuma solidez. O PT trocou a hegemonia que se formava por um amplo movimento desde a ditadura, no qual o próprio partido tinha lugar e função central, a direção moral
que reclamava transparência, separação das esferas pública e privada, fazia a crítica do neoliberalismo, organizava os trabalhadores, incluía os excluídos, indicava o caminho do socialismo, pelo prato de lentilhas da
dominação. O lulismo legitima o PSDB como irmão bastardo O PT no governo é um prolongamento da longa "via passiva" brasileira, a expansão do capitalismo da exclusão, a repetição do mesmo, desde o aliancismo
desembestado até as políticas dos tíquetes do leite. O PT é hoje o partido de centro no espectro político brasileiro, junto com aquele que escolheu como irmão, o PSDB: se odeiam, mas são irmãos. E o pior é que não sabe
disso. Pensa que está reformando o país. Embora transformações estruturais que o próprio PT sempre subestimou ajudem a explicar boa parte do seu aburguesamento, ou do seu envelhecimento precoce, nas palavras de Marx
e Engels, dois "renegados" pelo PT do poder, a responsabilidade das lideranças é inescapável. E a do presidente assume um lugar central: ele é a liderança carismática responsável, posto que ela projeta uma
sombra de proteção e encantamento sobre os processos reais. Quando a própria liderança carismática não tem consciência desse papel que lhe é imanente, então a política como atividade dos cidadãos corre um sério
risco, pois o mito anula a política. Aos cidadãos cabe recuperar o sentido da política e o primeiro e essencial passo é desmitificar o mito. |