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Colômbia

 

Há 100 anos, atualidades por fora da mídia

Darcy Ribeiro

Os governos republicanos da Colômbia do fim do século eram integrados predominantemente pelo patriarcado de Bogotá, assentado na propriedade latifundiária, no controle do comércio e na exploração do erário público, mas orgulhoso principalmente de suas habilidades como latinistas, gramáticos e versejadores. Estes patrícios citadinos, ideologicamente alienados do seu povo e do seu tempo, concediam-se a si mesmos como cônsules desterrados na América, junto ao populacho por ele chamado a integrar-se na modernidade, a amadurecer para a liberdade e a preparar-se para uma remotíssima igualdade.

Estes letrados viram-se, de abrupto, lançados em meio à intriga diplomática da Europa imperialista pós-vitoriana, com o surgimento do projeto de um canal interoceânico que deveria ser rasgado em território colombiano – o istmo de Panamá.

Foram anos de negociações e intrigas em que a Colômbia, confiante na vigência dos princípios do direito internacional, procurava amparar-se nas contradições de interesses da frança, da Inglaterra e da América do Norte, certa de que assim poderia assegurar o financiamento das obras a fim de abrir, manter e administrar um canal igualmente acessível a todos os povos.

Theodore Roosevelt, responde às aspirações de equidade dos colombianos com o big-stick. Entende-se com os ingleses sobre a custódia do canal e compra aos franceses por US$ 40 milhões os direitos da empresa concessionária da construção. Armado desses trunfos, manda à aprovação do parlamento colombiano um tratado de transferência aos ianques dos direitos, privilégios, propriedades e concessões antes asseguradas à Companhia Nova do Canal e a sua ampliação com outras regalias. Adverte, desde logo, que tem urgência na aprovação e que não admite alterações nas condições: prazo de um século, subordinação total da área à soberania norte-americana e pagamento de US$ 10 milhões, ou seja uma quarta parte do que pagara aos concessionários franceses pela simples desistência.

A Colômbia não tinha como aprovar auqelas condições. À sua recusa se segue, como fora previsto, um movimento separatista da população panamenha. Adredemente preparado e imediatamente reconhecido pelo governo norte-americano.Surge assim , um novo estado no mapa do continente (1903) com o qual os nrote-americanos passariam a tratar os assuntos do canal. Aos colombianos, qualificados por Theodore Roosevelt como "inimigos do gênero humano e da civilização por sua oposição à abertura do canal" só retou apresentar os mais veementes protestos verbais. Seu exército, como todos os latino-americanos, organizado exclusivamente para a repressão aos movimentos populares, era incapaz de opor qualquer resistência ao esbulho.

Sobrevêem anos amargos de frustração nacional. Mas nenhum amargor impedirira o reconhecimento da necessidade e da convivência de restabelecer relações com o colosso do norte, pelas vantagens que seus ricos capitais, seus empresários progressistas, seu estilo de vida democrático poderiam trazer à Colômbia. Todavia, só em 1921, o comércio se restabelece, através de um tratado que consigna o "sincero pesar" dos ianques e promete ressarcir aos colombianos com um indenização de US$ 25 milhões. O pagamento desta indenização custaria à Colômbia outro "panamá" já que foi condicionado à concessão às empresas norte-americanas do direito de exploração das imensas jazidas de petróleo do país.

Texto extraído do livro As Américas e a Civilização, editado em 1970 pela Editora Civilização Brasileira.

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