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José Marti

1853 - 1895

Em 28 de janeiro de 2003 será comemorado o 150º aniversário de nascimento de José Marti Pérez, o Mestre, Apóstolo e Herói Nacional da Independência de Cuba.

Jorge Lezcano Pérez

"Yo quiero que la Ley Primera de nuestra República sea el culto de los cubanos a la dignidad plena del hombre"

Ao morrer em combate, em 19 de maio de 1895, no local conhecido como Dois Rios, no oriente cubano, na guerra que havia preparado contra a Espanha, tinha apenas 42 anos e já se convertera em um dos grandes próceres de Nossa América. Um dia antes, em carta inconclusa a seu amigo mexicano, Manuel Mercado, escreveu: "Estou todos os dias na iminência de dar a vida por meu país e por meu dever – pois essa é a minha decisão e estou disposto a realiza-la – de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos estendam seu domínio pelas Antilhas e caiam, com essa força mais, sobre Nossa América. Tudo quanto fiz até hoje, e continuarei fazendo, é para realizar essa missão". "... impedir que em Cuba se abra, pela anexação dos imperialistas e dos espanhóis, o caminho que facilitará – e com o nosso sangue não permitiremos – a anexação dos povos de Nossa América pelo Norte violento e brutal que os deprecia..."

Amou sua pátria tanto como a todos e a cada um dos povos irmãos da América Latina e Caribe. Seu conceito universal de pátria, ele nos legou com sua afirmação: "Pátria é humanidade". Nós, os cubanos, forjamos a vocação solidária e internacionalista que praticamos fielmente ao longo dos 43 anos da Revolução.

Desde sua adolescência foram grandes a luta e os sacrifícios pela independência de Cuba e a felicidade de todos os cubanos. Com apenas 16 tornou-se preso político e, pouco tempo depois, com a deportação, teve início seu exílio. Num longo peregrinar por países da América Latina e Caribe aprendeu a conhecer e a amar os povos de Nossa América, desde o Rio Bravo até a Patagônia, e a lutar por sua integração. Os mais de 15 anos vividos nos Estados Unidos permitiram-lhe apreciar as virtudes do seu povo e os projetos expancionistas dos seus dirigentes, o que lhe permitiu afirmar: "vivi dentro do monstro e conheci suas entranhas".

Por sua fidelidade à defesa dos interesses dos povos latino-americanos, os governos do Uruguai, Paraguai e Argentina o designaram Cônsul dos seus países em Nova York. O Uruguai o nomeou, além disso, seu representante na Conferência Monetária Internacional, que se realizou em Washington, e de tal forma se destacou que se tornou o responsável pela derrota da tese dos Estados Unidos, que se propunham a ser os maiores produtores de prata, e defendiam o bimetalismo das moedas (que poderiam ser fundidas em ouro ou prata), o que tornaria os países latino-americanos dependentes, de forma quase exclusiva, dos Estados Unidos e alijados de maior aproximação com os países europeus.

Em nenhum momento de sua curta, mas intensa vida revolucionária, deixou de alertar os povos latino-americanos dos perigos existentes com o aumento do expansionismo norte-americano para submeter nossos países. Referindo-se ao Congresso Internacional Americano, que os Estados Unidos convocaram para Washington, escreveu no jornal La Nación, de Buenos Aires, em novembro e dezembro de 1889: "... se os povos da América colocarem seus negócios nas mãos de seu único inimigo, deverá ser apenas para ganhar tempo, fortalecer-se e unir-se para merecer, definitivamente, a confiança e o respeito das demais nações, antes que ele ouse impor a submissão ao vizinho a quem sempre tentou guiar nas suas decisões ou educar sua moral política e antes também de incorrer no erro e opróbio de lançar-se, pelo fato de estar no mesmo continente, sobre povos dignos, capazes, justos, e tanto quanto eles, prósperos e livres.

Jamais houve na América, da Independência até hoje, assunto que exija mais sensatez, nem obrigue a mais vigilância, nem necessite tanto de reflexão, quanto o convite que os Estados Unidos – poderosos, com abundância de produtos invendáveis, e decididos a estender seus sobre a América – fazem às nações americanas com menos poder, ligadas pelo comércio livre e útil com os povos europeus, para criar uma Aliança contra a Europa e fechar acordos com o resto do mundo. Da tirania da Espanha, a América espanhola conseguiu livrar-se; agora, depois de olhar com os olhos de juízes os antecedentes, causas e razões do convite, urge dizer, já que é pura verdade, que chegou a hora para a América espanhola declarar sua segunda independência.

Em 17 de abril de 1894, José Marti publicou no jornal Pátria: "Como fiel da América estão Antilhas, que seriam, sem cadeias, meras cabeças de ponto da guerra de um país imperial, convencido da sua superioridade, contra o mundo, e que já se prepara para negar-lhe o poder – a nova Roma americana. As nações das Antilhas – livres e dignas de sê-lo pelo respeito à liberdade eqüitativa e trabalhadora – seriam, no Continente, a garantia do equilíbrio, da independência para a América espanhola, ainda ameaçada, e de honra para a grande República do Norte, que no desenvolvimento do seu território – por desdita, já feudal e dividido em partes hostis – encontrará grandeza mais segura que na ignóbil conquista de seus vizinhos mais fracos e na luta inumana que, com a posse delas, abriria contra as potências mundiais pelo domínio do mundo ... É o mundo que queremos equilibrar, não apenas duas ilhas que vamos libertar ..."

Sua vida, inteiramente dedicada à causa do povo cubano e dos demais povos do nosso Continente não o impediram de adquirir uma grande cultura, e soube, como nenhum outro intelectual de sua época, dominar a literatura, a poesia, o jornalismo. De Marti, dizia Sarniento: "Em espanhol, não há quem se aproxime dos bramidos de Marti, e depois de Victor Hugo,ninguém representa a França nessa ressonância de metal". Rubén Dario diria dele, em 1888: "escreve, a nosso juízo, mais brilhantemente que qualquer outro intelectual da Espanha ou da América".

José Marti cursara jornalismo em sua permanência no México, e nos próprios Estados Unidos publicou artigos no The Sun e no The Hour, em inglês e francês. Mas foi graças a sua colaboração em jornais em espanhol, quando se radicou em Nova York, que sua fama cresceu por toda a Hispanoamérica. Mais de vinte jornais do Continente difundiram seus trabalhos. Em 1888 foi nomeado representante da associação de Imprensa de Buenos Aires, nos Estados Unidos, e, em 1890, foi eleito Presidente da Sociedade Literária da América Espanhola.

Transcendentes e decisivos foram suas contribuições à Pedagogia e à Cultura cubanas, como demonstram cada uma dessas sentenças:

"Ser culto é a única maneira de ser livre". "... Educar é depositar em cada homem toda a obra humana que o antecedeu; é fazer para cada homem o resumo do mundo real até a sua época....". "Os homens agradecerão a quem semeie escolas". " O verdadeiro objetivo da educação é preparar o homem para que possa viver com decoro, sem perder a graça e a generosidade do espírito, e sem colocar em perigo, com seu egoísmo e servilhismo, a dignidade e a força da Pátria ... ". E no quintal de cada escola uma horta, à chuva e ao sol, onde cada estudante plante uma árvore ...".

Também, para Nossa América, Marti escreveu sentenças importantes para a formação cultural e educacional dos nossos povos, como, por exemplo: "A universidade européia será suplantada pela universidade americana. A história da América, pós incas até hoje, há de prevalecer, ainda que não seja com o acordes da Grécia. Nossa Grécia é preferível à Grécia que não é nossa. Isto é o que importa. Os políticos nacionais acabarão substituindo os políticos exóticos. Enxerte-se em nossas repúblicas o mundo; mas o tronco terá que ser as nossas repúblicas".

Sua passagem pelas terra irmãs de Nossa América o levou a retemperar-se com a beleza e a bravura das terras centro-americanas, às quais exaltou:

"Como en ondas de flores se levanta, colgada de granadillas e hipomeas, la tierra de esmeralda y plumas, donde, el espejo de sus lagos e al incensario de sus volcanes, crecen en el combate y en la fadiga, según lo manda la naturaleza (...) las cinco repúblicas de Centroamérica, como un solo hogar".

Muito, muito mais poderia ser dito sobre a paixão de Marti por Nossa América, de seu destino, de sua luta incansável para realizar os sonhos de integração de Simon Bolívar, sobre a atualidade do seu pensamento, mas não é este o objetivo desta publicação. Buscamos, com as referências sobre a vida e a obra de José Marti, chamar a atenção dos leitores para a importância do pensamento político do Apóstolo da Independência de Cuba, que ressalta de alguns dos seus escritos e que a Embaixada da República de Cuba no Brasil publica, para homenageá-lo por ocasião de mais um aniversário do seu nascimento. Em 2003, quando se comemora o 150º aniversário do seu nascimento, nosso povo dispõe-se a prestar-lhe todas as homenagens, para as quais estamos convidando a todos os irmãos latino-americanos e, em particular, o querido povo brasileiro.

"Mais vale uma trincheira de idéais do que uma trincheira de pedras"
José Marti

Texto distribuído pela Associação Cultural José Marti-RJ, organizado e traduzido pela Profa. Zuleide Faria de Melo .

Jorge Lezcano Pérez é Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário Da República de Cuba no Brasil.

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