Mas, a Internet é mídia. Como então transformar esse potencial em realidade? Como fazer com que a realidade, possibilitada pelas relações
comunicativas, estejam de acordo com as normas e hábitos daqueles que a utilizam? Como transformar um primário contato de interface tecnológica em participação efetiva, através da cobertura das necessidades de
informação demandadas pelos usuários?São questões que brotam quando é enfocada de forma diferenciada a Internet, ou seja, de acordo com sua estrutura e tipo de relações políticas. O chamado ciberespaço ganha, dessa
forma, uma nova perspectiva conceitual quando encarado como campo de trocas intelectuais, valorizando o tipo de tecnologia empregada de acordo com a ideologia que se quer empreender. Nesse sentido, uma abordagem
dialética torna-se primordial para a compreensão de um sistema de comunicação que se quer claro e amplo ao fluxo das idéias. Mas de que idéias está se falando? Daquelas que estão longe da consciência
distorcida da realidade. Na verdade, propõe-se um modelo de canal de comunicação que esteja de acordo com a proposta original da Web e que não tem a ver com o livre mercado, mas sim com a participação e a
(re)construção, não só de estruturas físicas (tecnológicas) mas também de estruturas ideológicas. Pois há a convicção corroborada por Barbrook de que: "O centro da Internet não é o mercado e a comercialização de
informações, mas, pelo contrário, a circulação livre de informação". E é nesse sentido que ele é elaborado, ou seja, com um olho em seu meio (digital) e outro no meio ambiente de seus usuários. A importância que é dada
à relação espaço-tempo só adquire sentido se houver interação harmônica entre o sistema (sítio) e o usuário-leitor, pois fala-se de quem se utiliza de determinada estrutura (espaço) e em que momento à utiliza (tempo).
Por isso, é necessária a quantidade de informação certa no momento certo. Esta é a melhor forma de atender ao usuário sem comprometer a credibilidade de um sítio, o que torna um dos paradoxos da vida atual. Se no
passado era preciso muita informação para a fundamentação de idéias e projetos, hoje é essencial que a informação seja a mais relevante possível, o que diminui o espectro quantitativo e amplia a relação de qualidade
entre o sistema e o usuário. Como expõe Anelise Pacheco: "Se na sociedade moderna o conhecimento era atingido por um grau cada vez maior de informação, nos dias atuais o indivíduo abdica de possuir um maior volume de
informação ao reconhecer sua impossibilidade em alcançar um conhecimento universal e reconhecer sua impotência em acompanhar o poder de cálculo das novas tecnologias da informação e conseguir processar todas as
informações que lhe forem oferecidas". A relação entre conteúdo e leitor Para ilustrar a necessária imbricação entre os fatos e a elaboração do ClipPirata
foram eleitos três acontecimentos que serviram como mote para ilustrar a existência do informativo. A produção de um informativo virtual com essas características envolve o grau de comprometimento da
equipe que o produz com a ideologia que carrega. A viabilidade de seu conteúdo informacional é real se todos os envolvidos estiverem coordenados para seguir a mesma trilha. Coordenação de grupo com coerência na linha
editorial, elimina a simplicidade da composição de um clipping a partir da (re)composição de fragmentos, proporcionando o sentido da identidade entre o leitor e o conteúdo, o que reverterá em audiência com qualidade. O
estado ideológico da equipe converge para a forma como é construído o conteúdo do sítio. No caso específico do ClipPirata
, parte-se do princípio que todos os problemas humanos são originados por ações humanas na história. Todas as revoltas, revoluções, decisões políticas e econômicas, etc. são o resultado de causas históricas, por isso, parafraseando Leonel Brizola, dizemos que temos o 'fio da história', porque os acontecimentos ganham dimensão antecipada. Relatemos exemplos factuais: Em Agosto de 1998, a equipe do
ClipPirata
compareceu à uma palestra, na Universidade Cândido Mendes, proferida pelo professor da Universidade Autônoma do México (UNAM), Heinz Dieterich, para o lançamento do livro 'O Fim do Capitalismo Global', no qual era co-autor. O que motivou a equipe para ir ao encontro foi o simples fato de estar ligado ao grupo do professor do MIT (Massachussets Institute of Technology) Noam Chomsky, um dos mais agudos críticos da política externa norte-americana. Dois anos depois, despontava na Venezuela a liderança do Coronel
Hugo Chávez Frías, como candidato à presidência da República com um programa
amplo de fechamento político em torno da América Latina, traduzindo-se na tentativa de consubstanciar o projeto de integração de Simón Bolívar. Dois fatos aparentemente desconexos, mas que se fecham mais tarde em um
amplo projeto entitulado Um Novo Projeto Histórico para as Maiorias, (
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apresentado em um seminário promovido pela UERJ, em Abril de 1999 e que contou com a participação do próprio Dieterich e do Coronel-Aviador venezuelano Vilmar Castro Toledo, do Ministério dos Transportes do governo Hugo Chávez. Assim, a antecipação da cobertura dada ao fato da visita de um professor de economia, desconhecido do público brasileiro e assistido por uma reduzida platéia, e a importância dada à eleição em um país fronteiriço e, ao mesmo tempo, tão distante do Brasil, dá ao informativo virtual a credencial política junto ao seu usuário com informação relevante e que valoriza as idéias ligadas aos fatos, e não apenas os fatos em si. É o que destoa a atividade do
ClipPirata em relação às outras fontes de informação virtuais. Pois foram dois fatos aparentemente sem importância que ganharam status nas páginas de um clipping e ação política manifesta nas ruas de Caracas.
Este sítio está estruturado nesta lógica, e foi por meio da fundamentação histórica e dos acontecimentos na dinâmica da Internet que ele se originou. Um novo espaço para o pensamento político surge no momento em que as
redes sociais e tecnológicas se expandem. Em 1999, eclodiu a manifestação que seria o marco de uma nova etapa na atuação dos movimentos
sociais. (
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Seattle redefiniu as fronteiras à ação contestatória contra o modelo econômico neoliberal que pretendia estabelecer o AMI (Acordo Multilateral de Investimentos). Não haveria, a partir daí, mais lugar sossegado para a agiotagem da banca internacional se reunir a portas fechadas. Centenas de jovens, usuários do novo meio tecnológico, a Internet, se encontram aonde está havendo a cúpula da OMC e de lá expressam ao mundo que não aceitam diretrizes impostas pelas grandes corporações multinacionais e grupos financeiros. Nada passa despercebido pela Rede das Redes, se for seguido o 'fio da história'. Seattle'99 é a marca de uma potencialidade que se transforma em realidade, porque a Internet é isto, uma potencialidade info-comunicacional a ser gerida para a produção de informação relevante a usuários que dela necessita. Que por ela se mobiliza.
(
leia mais) Entretanto, nada mais antecipatório do que a questão islâmica. Ao longo de uma
década, desde a Guerra do Golfo, em 91, o mundo ocidental se deparou com um 'novo' personagem. Forjados pelos mass media
como a barbárie (re)inventada, personagens e povos islâmicos foram constantemente referenciados à violência e à intolerância. Toda a informação gerada no bojo de notícias sobre guerras ou conflitos interétnicos, reportava ao apontamento direto de indivíduos ou grupos responsáveis por ações radicais, como atos terroristas (vide conflito Israel-Palestina e os atentados de 11 de Setembro de 2002). Entretanto, e principalmente, antes dos atentados ocorridos em território norte-americano, o mundo islãmico era quase totalmente excluído e, por isso, desconhecido do ocidental. Nenhuma obra, ou publicação, nenhuma linha ou documentário foi veiculado nos
mass media
apresentando o mundo islâmico ao "mundo civilizado" ocidental. O 11 de Setembro marcou uma verdadeira virada nessa cobertura, onde centenas de livros foram publicados sobre o Islã e infindáveis documentários e personalidades passaram a falar daqueles quase 1 bilhão e meio de excluídos da globalização, embora de há muito violentamente fustigados pelos órgãos de inteligência das potências hegemônicas. Tornou-se evento ratificador das prerrogativas consideradas na implementação do
ClipPirata, como informativo que se pretende em um espaço alternativo de transformação ao mass media, inclusive se utilizando dele, só que em manchetes, sentidos e intensidades diferentes. Premonição?
Simplesmente porque este informativo considerou e privilegiou o mundo islâmico como mais um pilar relevante à própria construção do mundo ocidental. Como uma poesia que valoriza a tolerância e o entendimento entre os
povos antecipou-se no ClipPirata número 15, em 5 de dezembro de 2000, o excelente prefácio do livro do filósofo francês, Roger Garraudy, escrito pelo argelino Mohammed Bedjaoui sobre o Diálogo das Civilizações.
Portanto, 279 dias, 17 horas e 3 minutos antes do atentado ao World Trade Center, às 8:48 hs do dia 11 de setembro de 2001. Destacando, dessa forma, o que percebe como os múltiplos caminhos da humanidade. (leia mais
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