Até o início da guerra de "Canudos" as elites do litoral e do sul ignoravam o que fosse o sertão: uma estranha pátria sem dono, abandonada
pelas leis e instituições, vivendo sob o jugo da terra e dos latifundiários.A revolta de "Canudos" foi liderada por Antônio Vicente Mendes Maciel, cearense, depois conhecido como Antônio Conselheiro,
que iniciou sua trajetória de andarilho como beato e, aos poucos, foi seguido por milhares de sertanejos. Prosseguiu dando conselhos e, ajudado pelo povo que o seguia, construiu e restaurou igrejas, fundou povoados que
se tornaram cidades.
Em 1876, a Igreja Católica, sentindo-se desprestigiada com o sucesso da pregação de Antônio Conselheiro, pediu seu afastamento do sertão, não tendo sido atendida. Em 1893 o beato era
absoluto no sertão.. Já não era apenas o místico inofensivo, o doido que arrastava multidões,mas, também, o político que se protegia com jagunços e não aceitava as notícias vindas do litoral de que o Imperador havia
sido expulso por uma tal de República, esta, segundo ele, era "coisa do cão" e afirmava: "Deus, através da Princesa Isabel libertara os escravos, e o demônio, para se vingar,derrubou a Monarquia." Por isso, em 1893,
em Bom Conselho, Antônio Conselheiro mandou o povo queimar os editais de impostos do município. Perseguidos pelo poder local, Conselheiro e seus sertanejos entraram cada vez mais para o deserto e encontraram seu reduto
"Canudos", "velha fazenda abandonada à beira do rio Vaza Barris". Lá chegaram a ser construídas 12 casas de pau-a-pique por dia, para atender a multidão que chegava. A "Guerra de Canudos" constituiu-se
de quatro batalhas. A última, não foi uma guerra, mas sim, uma vingança selvagem pelo fato do Exército não admitir as três derrotas anteriores. Foram cinco mil homens do Rio de Janeiro com mais um reforço de três mil
homens de polícia militar da Bahia para liquidar os pseudos monarquistas. Euclides da Cunha chegou em "Canudos" no final da luta, mas ainda pode sentir todo seu barbarismo. "Canudos" não se rendeu,
resistiu até o esgotamento.Os soldados incendiavam casas onde estavam crianças e velhos. Todos morreram. Na mente de Euclides, que tudo presenciava horrorizado, crescia a idéia de denunciar a barbárie e provar que
"Canudos" não era um problema político, era uma questão social. Suas razões profundas eram o latifúndio, o coronelismo, a servidão, o isolamento cultural e a dureza do meio. Foi o primeiro escritor brasileiro a
diagnosticar o subdesenvolvimento do Brasil, indicando a existência de dois Brasis; o do litoral, desenvolvido e o do sertão, desconhecido, esquecido. "Os Sertões" é fundamentalmente uma obra literária,
de um gigantismo comparável aos "Lusíadas" de Luís de Camões e "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes seja na construção dos tipos, seja no conteúdo trágico, seja no estilo. Sua linguagem tende para o solene e o
monumental, mas é moderna no registro dos conflitos sociais, dos desvarios psíquicos e do heroísmo anônimo das populações sertanejas. O escritor desenvolveu sua obra em três partes: "A Terra", "O Homem",
"A Luta". Na primeira parte são estudados o relevo, o solo, a fauna, a flora e o clima da região nordestina. Euclides da Cunha revelou que nada supera a principal calamidade do sertão: a seca. Registrou, ainda, que as
grandes secas do Nordeste obedecem a um ciclo de 9 a 12 anos desde o século XVIII, numa ordem cabalística. O livro levou cinco anos para ser escrito. Misto de ensaio científico, panfleto e relato
jornalístico, o livro impressiona por sua força estética. Em uma choupana à beira do rio, em São José do Rio Pardo, Euclides da Cunha terminou seu livro, contando a verdadeira história sobre o extermínio
de "Canudos": uma luta desigual e vergonhosa, em que o Exército Brasileiro se cobriu de infâmia. O inimigo invencível, afinal de contas, não passava de gente sofrida das secas. Mulheres, velhos e
crianças que resistiram até o fim, numa luta inglória. Negros e índios que buscavam criar um espaço como integrante da nação. A "Guerra de Canudos" foi um dos maiores genocídios da História do Brasil; em
nome da República foram cometidas atrocidades que sem o livro de Euclides da Cunha jamais seriam reveladas. |