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100 anos de "Os Sertões"

Palestra do acadêmico titular da cadeira n° 3, patrono Euclides da Cunha, Dr. Josival Alves Barreto, na Academia Petropolitana de Letras, na comemoração acadêmica do centenário do lançamento do livro "Os Sertões".

Para bem compreender a extensão da obra de Euclides da Cunha é mister perquirir sobre a personalidade do genial escritor.

O autor

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, engenheiro, jornalista, professor, ensaísta, sociólogo e poeta, nasceu em 20 de janeiro de 1866, na Fazenda Saudade, distrito de Santa Rita do Rio Negro, atual Euclidilândia, no município de Cantagalo, Estado do Rio de Janeiro. Faleceu na manhã de 15 de agosto de 1909, na Estação da Piedade, Estrada Real de Santa Cruz, Rio de Janeiro, aos 42 anos de idade, assassinado pelo jovem Dilermando de Assis, amante de sua mulher, Ana Maria Cunha.

A vida conturbada

A vida de Euclides da Cunha foi marcada pela tragédia. Órfão de mãe aos três anos de idade, cresceu sob os cuidados de vários parentes. Um homem de personalidade obsessiva e passional. Ele próprio definia-se um misto de CELTA, de TAPUIA e GREGO. Foi amigo de intelectuais e gente poderosa como o Barão do Rio Branco.

A missão

Quando irrompeu o movimento "Canudos", Euclides da Cunha foi encarregado pelo jornal O Estado de São Paulo para acompanhar como correspondente de guerra, o movimento rebelde chefiado por Antônio Conselheiro no Arraial de Canudos, em pleno sertão baiano.

O contexto histórico

Nessa ocasião, o Brasil vivia um conturbado momento político com a passagem da Monarquia para a República. A libertação dos escravos em 1888 fora um golpe fatal na monarquia e, no ano seguinte, o golpe militar de 15 de novembro, liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca, que proclamou a República trazendo a esperança de liberdade e igualdade entre os homens, mudanças radicais que acabariam com os privilégios.

Canudos

Até o início da guerra de "Canudos" as elites do litoral e do sul ignoravam o que fosse o sertão:  uma estranha pátria sem dono, abandonada pelas leis e instituições, vivendo sob o jugo da terra e dos latifundiários.

A revolta de "Canudos" foi liderada por Antônio Vicente Mendes Maciel, cearense, depois conhecido como Antônio Conselheiro, que iniciou sua trajetória de andarilho como beato e, aos poucos, foi seguido por milhares de sertanejos. Prosseguiu dando conselhos e, ajudado pelo povo que o seguia, construiu e restaurou igrejas, fundou povoados que se tornaram cidades.

Em 1876, a Igreja Católica, sentindo-se desprestigiada com o sucesso da pregação de Antônio Conselheiro, pediu seu afastamento do sertão, não tendo sido atendida.  Em 1893 o beato era absoluto no sertão.. Já não era apenas o místico inofensivo, o doido que arrastava multidões,mas, também, o político que se protegia com jagunços e não aceitava as notícias vindas do litoral de que o Imperador havia sido expulso por uma tal de República, esta, segundo ele, era "coisa do cão" e afirmava: "Deus, através da Princesa Isabel libertara os escravos, e o demônio, para se vingar,derrubou a Monarquia."
Por isso, em 1893, em Bom Conselho, Antônio Conselheiro mandou o povo queimar os editais de impostos do município. Perseguidos pelo poder local, Conselheiro e seus sertanejos entraram cada vez mais para o deserto e encontraram seu reduto "Canudos", "velha fazenda abandonada à beira do rio Vaza Barris". Lá chegaram a ser construídas 12 casas de pau-a-pique por dia, para atender a multidão que chegava.

A "Guerra de Canudos" constituiu-se de quatro batalhas. A última, não foi uma guerra, mas sim, uma vingança selvagem pelo fato do Exército não admitir as três derrotas anteriores. Foram cinco mil homens do Rio de Janeiro com mais um reforço de três mil homens de polícia militar da Bahia para liquidar os pseudos monarquistas. Euclides da Cunha chegou em "Canudos" no final da luta, mas ainda pode sentir todo seu barbarismo.

"Canudos" não se rendeu, resistiu até o esgotamento.Os soldados incendiavam casas onde estavam crianças e velhos. Todos morreram. Na mente de Euclides, que tudo presenciava horrorizado, crescia a idéia de denunciar a barbárie e provar que "Canudos" não era um problema político, era uma questão social. Suas razões profundas eram o latifúndio, o coronelismo, a servidão, o isolamento cultural e a dureza do meio. Foi o primeiro escritor brasileiro a diagnosticar o subdesenvolvimento do Brasil, indicando a existência de dois Brasis; o do litoral, desenvolvido e o do sertão, desconhecido, esquecido.

"Os Sertões" é fundamentalmente uma obra literária, de um gigantismo comparável aos "Lusíadas" de Luís de Camões e "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes seja na construção dos tipos, seja no conteúdo trágico, seja no estilo. Sua linguagem tende para o solene e o monumental, mas é moderna no registro dos conflitos sociais, dos desvarios psíquicos e do heroísmo anônimo das populações sertanejas.

O escritor desenvolveu sua obra em três partes: "A Terra", "O Homem", "A Luta". Na primeira parte são estudados o relevo, o solo, a fauna, a flora e o clima da região nordestina. Euclides da Cunha revelou que nada supera a principal calamidade do sertão: a seca. Registrou, ainda, que as grandes secas do Nordeste obedecem a um ciclo de 9 a 12 anos desde o século XVIII, numa ordem cabalística.

O livro levou cinco anos para ser escrito. Misto de ensaio científico, panfleto e relato jornalístico, o livro impressiona por sua força estética.

Em uma choupana à beira do rio, em São José do Rio Pardo, Euclides da Cunha terminou seu livro, contando a verdadeira história sobre o extermínio de "Canudos": uma luta desigual e vergonhosa, em que o Exército Brasileiro se cobriu de infâmia.

O inimigo invencível, afinal de contas, não passava de gente sofrida das secas. Mulheres, velhos e crianças que resistiram até o fim, numa luta inglória. Negros e índios que buscavam criar um espaço como integrante da nação.

A "Guerra de Canudos" foi um dos maiores genocídios da História do Brasil; em nome da República foram cometidas atrocidades que sem o livro de Euclides da Cunha jamais seriam reveladas.

"Os Sertões"

Quando terminou o livro, em 1902, Euclides da Cunha tentou, inutilmente publicá-lo em São Paulo; consegui faze-lo no Rio de Janeiro e obteve êxito sem precedentes em nossa literatura, consagrado pela crítica, como obra-prima.

A publicação de "Os Sertões" é um marco na vida intelectual do Brasil. A importância literária e científica da obra foi reconhecida, de início, pela crítica autorizada de José Veríssimo e Araripe Júnior. A obra foi traduzida em 60 países e em idiomas como o japonês, o russo, o chinês. É um dos grandes livros da literatura universal.

Euclides da Cunha revelou ao Brasil e ao mundo o que ninguém até então conhecia: que o sertão é um só, uma pátria independente. "Canudos" é uma síntese perfeita, em escala reduzida, dos aspectos predominantes dos sertões do Nordeste. Mostrou, com isso, que a "Guerra dos Canudos" não foi apenas um acontecimento local, mas um grito de revolta de todo sertão brasileiro.

Borges e Vargas Llosa

Durante os cem anos de existência muitos foram os elogios de toa parte do mundo quanto à obra citada. Jorge Luiz Borges, estrela maior do firmamento cultural da Argentina, considerou Euclides da Cunha como o maior escritor da América Latina, afirmando que sua obra,  "OS SERTÕES", não foi suplantada pela obra de Josué de Castro, "GEOGRAFIA DA FOME" nem a de Gilberto Freire, "CASA GRANDE E SENZALA".

Mário Vargas Llosa, escritor peruano, autor de "A GUERRA DO FIM DO MUNDO", sobre a saga de Canudos, baseando-se nas pesquisas e conclusões de Euclides da Cunha:
"OS SERTÕES" estarreceu o mundo com a denúncia de abandono da população sertaneja nordestina, assim como o manifesto "J´Accuse", de Èmile Zola, romancista e jornalista francês, que trouxe a público a torpeza infligida contra o jovem Alfredo Dreyfus, oficial do Exército Francês, convocando a população a exigir a reabertura do processo que o condenara à pena de degredo na "Ilha do Diabo". Tal fato resultou na vitoriosa revisão do Julgamento de Rennes – 1896/1935 – determinando a absolvição do acusado e a sua conseqüente reintegração no Exército Francês."

Epílogo vergonhoso

Em 1996, o semanário inglês The Economist designou dois repórteres da sua equipe para fazerem o mesmo percurso realizado por Euclides durante a cobertura de "Canudos". As conclusões a que chegaram estarreceram a Europa!!!
Tudo continuava exatíssimamente igual  ao que encontrara o escritor brasileiro. O estado de abandono das populações sertanejas entregues à própria sorte, a monocultura anti-social, o analfabetismo a que estavam relegadas as populações interioranas, culminando na afirmativa: "A sombra de "Os Sertões",obra de Euclides da Cunha, permanece perigosamente atual", concluindo que os "bóias-frias" e os "trabalhadores sem terra", são os descendentes de "Canudos".

Verifica-se, com tristeza, após um século de seu registro, que os sertanejos de "Canudos" são os excluídos de hoje, mantendo-se o grito de Euclides da Cunha em "Os Sertões", irônica e escandalosamente atual.

Referência Bibliográfica
1) CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 5ª ed. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1914.
2) LLOSA, Mário Vargas. A Guerra do Fim do Mundo. 10ª ed. Trad.Remy Gorga, filho. Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves, 1982.
3) CASTRO, Josué de. Geografia da Fome.  7ª ed. 2 vols. São Paulo, Editora Brasiliense, 1961.
4) FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. 16ª ed. 2 tomos. Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1969
5) BARBOSA, Ruy. Dreyfus. Rio de Janeiro. Organização Simões, 1952.
6) Semanário inglês THE ECONOMIST, edição de 2 de maio de 1996.
7)
www.bibvirt.futuro.usp.br
8)
www.cce.ufsc.br
9)
www.tvcultura.com.br

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