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A Norma do Crime

Janio de Freitas

Tudo o que seja dito e escrito a propósito do assassinato da freira Dorothy Stang já foi escrito e dito, ano após ano, a propósito do assassinato do padre X, e do líder seringueiro, e do padre Y, e do sindicalista rural, e do líder de assentamento, e do padre N, e da família posseira, e do deputado fulano, e dos tantos de Carajás, e outros padres, e mais outros sindicalistas rurais, e mais assentados e mais posseiros: o tempo e a morte caminham juntos no campo brasileiro, os passos cadenciados na marcha sinistra.
O que foi que mudou depois de cada morte e sua comoção nacional? O que é que foi feito para mudar alguma coisa depois de cada morte e das promessas governamentais que se seguiram à comoção nacional?
A resposta imediata cabe em quatro letras.

Outra resposta, menos sucinta, cabe em uma frase: nada foi feito porque a violência criminal é uma normalidade em permanente progressão no Estado brasileiro.

 O que era comum nas distâncias agrestes, chegou às periferias urbanas, e hoje está em todas as ruas de qualquer bairro nas cidades igualadas, todas, pela mesma convivência fraterna entre criminalidade, medo e impotência.
No meio rural outra vez elevado a manchetes, são centenas de pontos críticos, onde estão ocorrendo crimes sem notícia -como no interior de Pernambuco- e onde há iminência de mais crimes escandalosos. Nada de novo, pois. Entre o silêncio indiferente e a comoção, os acontecimentos dependem só da marcha do tempo, que dessa fluidez se faz a normalidade.
Se esses pontos são identificados, por que não há providências para dissolvê-los? A verda- de é que a Polícia Federal não está dotada de pessoal suficiente nem, muito menos, das verbas necessárias. Só pode fazer intervenções tópicas, em último caso. Ou seja, quando, para o mais importante, já é tarde.
Diz alguém do governo que será feito um levantamento da grilagem em terras do Pará, para retomá-las e dar-lhes uso legal. Digamos, com a possível delicadeza, que não é verdade. O governo não fará nada disso. Por três motivos: não tem pessoal para a tarefa; não previu verbas com essa ou com finalidades semelhantes, e enfrentar esse tipo de problema não figura entre as prioridades verdadeiras do governo -inflação, relações elevadas com os setores financeiros internos e externos, e fortalecimento político ininterrupto do grupo no poder, com vistas postas em um futuro a perder de vista.

Texto originalmente publicado na Folha de S.Paulo

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