2006 já começou para a América Latina, com a eleição de Evo Morales para a presidência da Bolívia, o acontecimento mais importante da
história desse país e um dos mais importantes do continente no ano. O longo ciclo de dez eleições presidenciais na região segue com o segundo turno da eleição chilena, em que deve se confirmar – embora com dificuldades
– a eleição de Michele Bachelet como primeira mulher presidente do Chile, determinando o quarto mandato seguido da aliança entre os socialistas e os democrata-cristãos.
Se a eleição da Costa Rica, em fevereiro
de 2006, não deve apresentar novidade, a do México, em julho, em turno único, promete ser das mais importantes do ano, junto com a brasileira. Depois de ter tido sua vitória literalmente roubada – segundo confissão nas
memórias do ex-presidente Miguel de la Madrid, do PRI –, em 1988, com Cuahutemoc Cardenas, o Partido da Revolução Democrática (PRD) é de novo favorito para eleger o presidente do México.
O ex-governador do
Distrito Federal, Andrés Manoel Lopez Obrador, está em primeiro lugar nas pesquisas, na frente de um ex-ministro do presidente Vicente Fox, do PAN, e do mesmo candidato do PRI que concorreu na eleição anterior. Caso
ganhe Lopez Obrador, se ampliará o campo de alianças para a integração latino-americana. Mesmo sem sair do Tratado de Livre-comércio da América do Norte, o hoje candidato do PRD se aproximaria do Mercosul e dos outros
projetos de integração continental, aumentando ainda mais o isolamento dos EUA na América Latina.
Na Colômbia, depois de conseguir uma reforma eleitoral que introduziu a reeleição, o conservador Álvaro Uribe é
favorito para seguir no governo, com o apoio irrestrito do governo de Bush, intensificando a guerra contra as organizações guerrilheiras, embora a oposição a seu governo tenha crescido, a ponto de ele ter perdido um
plebiscito e de, nas eleições municipais, os candidatos opositores tenham vencido, inclusive na capital, Bogotá.
No Peru, um candidato nacionalista surpreende e se aproxima de uma candidata empresarial,
conservadora, que até ali liderava as pesquisas, para a eleição presidencial de abril de 2006. Na Nicarágua, os sandinistas têm uma nova oportunidade de retornar ao governo, seja na versão oficial de Daniel Ortega, seja
na dissidente do prefeito de Manágua, Herty Lewites.
A eleição equatoriana, de outubro é uma incógnita. Depois de eleito com o apoio dos movimentos camponês e indígena daquele país, Lúcio Gutierrez assinou
acordos com o governo estadunidense que feriam diretamente sua própria plataforma eleitoral. Não demorou para que esses movimentos rompessem com o governo, pagando no entanto o preço de não haver construído sua própria
alternativa, dividindo-se e mantendo alguns setores minoritários no governo. O quadro eleitoral ainda não está desenhado, mas os partidos tradicionais, que tiveram depostos seus últimos três presidentes eleitos por
mobilizações sociais, podem voltar ao governo.
No Brasil se decide muito do futuro da América Latina. A política externa brasileira colocou o país como eixo de uma ampla aliança, que vai de Cuba e da Venezuela
por um lado, até a Argentina e o Uruguai, incorporando agora certamente a Bolívia. A continuidade dessa política permitirá, agora com um campo mais amplo de ação – incluindo a Bolívia e eventualmente o México e o Peru –
consolidar o única espaço de integração em escala internacional com autonomia em relação aos EUA. |