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Moratória Brasileira

Pode ser a saída para a renegociação de toda a dívida externa

O professor Celso Furtado, candidato ao prêmio Nobel de Economia deste ano, defendeu ontem que o Brasil se prepare para, no futuro, declarar uma moratória com o objetivo de renegociar toda a dívida externa. Em conferência no primeiro dia do Ciclo de Seminários "Brasil em Desenvolvimento", na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Furtado disse que a renegociação seria necessária para baixar as taxas de juros internas.

De acordo com ele, o Brasil é tão dependente de capitais externos que "pode ser, na prática, submetido a uma extorsão". Para Furtado, "o controle da taxa de juros passou a ser um extraordinário instrumento de poder". Falando de uma perspectiva histórica, denunciou "uma perversa articulação entre as elevadíssimas taxas de juros com concentração de renda".

Furtado considera que as taxas de juros, a concentração de renda no País e a dependência do capital estrangeiro são problemas "mais políticos do que econômicos, escapam às leis de mercado". De acordo com ele, "quando chegar o momento, o Brasil terá de chamar os credores para agir" e assim ter taxas de juros diferenciadas.

Entre as medidas necessárias para a moratória estaria a adoção de um controle de câmbio, do qual "hoje não se fala porque o Fundo (Monetário Internacional - FMI) não admite isso". Furtado lembrou que o Brasil tem tradição nesse tipo de controle, utilizado por muitos anos. O economista descreveu o controle de câmbio como um sistema em que "todo capital que sai tem de se explicar e ter justificativa".

Penúria

Para Furtado, o FMI e os credores internacionais têm interesse em manter uma boa relação com o Brasil. Mesmo assim, a renegociação seria difícil e o País passaria "por dois, três ou quatro anos de penúria". Ele considera, no entanto, que valeria a pena para ter uma mudança estrutural.

Segundo Furtado, hoje "o Brasil é uma economia aleijada: ou pára ou se endivida". Ele afirmou que o governo Fernando Henrique Cardoso "se endividou loucamente". Já o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, para escapar ao endividamento externo, "foi para recessão".

Para Furtado, o Brasil irá a moratória "mais cedo ou mais tarde", talvez por falta de alternativa. Ele avalia que há riscos de a recessão aumentar para uma queda de 5% ou 6% do Produto Interno Bruto (PIB), o que poderia apressar uma renegociação da dívida externa. O economista considera que o governo tem de "agir rapidamente" para evitar essa possibilidade. "Mais uma vez, o esforço é com o FMI", afirmou.

"O governo quer consolidar a saúde do Brasil em cooperação plena com o Fundo e os credores. Isso permite sobreviver, mas o País está parado. Aí o País agüenta um ou dois anos no máximo."                                                          

Texto publicado na Tribuna da Imprensa

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