Foram divulgados no fim de setembro dados oficiais sobre o PIB do 1º semestre de 2003. Na comparação com o 1º semestre de 2002, o IBGE assinala
crescimento do PIB em míseros 0,3%, percentual bem inferior ao do aumento da população. Se essa cifra já assusta, o que realmente está acontecendo é muito pior. De acordo com o IBGE, o PIB em preços correntes elevou-se para R$ 711 bilhões, tendo sido de R$ 619,6 bilhões no 1º semestre de 2002. Ora, para, a partir desses números, determinar
a variação real do PIB há que cotejar a média mensal dos índices de preço nos seis meses de cada um dos dois períodos. Portanto, o valor de 2002 tem de ser multiplicado por 1,162, aplicando o IPCA, ou por 1,303,
utilizando o IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas. Este é mais apropriado, já que se refere aos preços em geral, sendo mais abrangente do que aquele, relativo apenas a preços ao consumidor. Atualizado, o valor de 2002
supera o de 2003, qualquer que seja o índice. Houve, portanto queda real do PIB. A variação Negativa deste foi de 1,3% pelo IPCA e de nada menos que 11,9% pelo IGP-DI. O quadro é ainda mais aterrador, deduzindo as
exportações do valor do PIB, o que permite avaliar melhor a contração havida na produção destinada ao mercado interno. Tomando-se o PIB sem as exportações, o declínio atingiu 7,45%, pelo IPCA, e 17,4%, pelo IGP-DI.
Lembro aos menos atentos que no PIB são contados os juros e os impostos. Esses dois itens devastam a renda disponível da grande maioria dos brasileiros. Nos juros houve elevação na comparação entre os primeiros
semestres de 2003 e 2002. O enorme aumento dos encargos financeiros de 2002 deu-se no 2º semestre desse ano, em função da desvalorização cambial. Recordo também que a taxa dos investimentos de capital fixo em relação ao
PIB está no nível mais baixo de todos os tempos, desde que a estatística é levantada. Esses investimentos são os que implicam formação de capacidade produtiva. Para a sua continuada míngua, o fator decisivo tem sido a
contenção dos gastos públicos, em função da política de desviar cada vez mais receitas para o serviço das dívidas interna e externa. O PIB em dólares anda na faixa de US$ 460 bilhões/ano, mesmo com a parcial
recuperação da taxa do real, frente ao dólar, em 2003. Ele era de US$ 543 bilhões em 1994. No mundo, o PIB brasileiro desceu para a 15º posição. Correspondia, em 1998, a 3,3% do total das 15 maiores economias do mundo.
Correspondia, em 1998, a 3,3% do total das 15 maiores economias, caindo para 1,7% em 2003. Foi ultrapassado por China, Espanha, México, Coréia do Sul, Holanda, Austrália e Índia. Como notou o professor Mangabeira Unger,
só estão bem hoje no Brasil o agronegócio, as empresas de mineração e os bancos. Que significa tudo isso? Que o modelo econômico, no qual a atual administração federal não toca nem de leve, vem transformando o Brasil em
uma economia tendente à condição de primário-exportadora. Traduzindo para a língua da realidade, o progresso prometido pela globalização implica o retrocesso ao Século XIX, em condições "n" vezes mais
desfavoráveis. Com efeito, a população era menos de 1/10 da atual, e os recursos naturais estavam quase intatos. Ainda não haviam sido arrasadas montanhas, crateras abertas, o solo desgastado por culturas predatórias,
florestas e cerrados transformados em pastos, os rios poluídos etc. Para quê? Apenas para exportar recursos naturais e algum valor agregado, deixando virtualmente sem remuneração a mão-de-obra que produz. Em 2003,
até setembro, o agronegócio responde por 42,4% das exportações. Acrescentando as de minérios, metais processados e combustíveis, as vendas ao exterior de produtos de reduzido valor agregado constituem mais de 60% do
total. Estamos diante de uma estrutura de país periférico, situação da qual se saíra, em grande parte, desde os anos 30 até meados dos anos 70. No fim desse decênio, as falhas estruturais do modelo dependente,
caracterizado pela predominância do capital externo nos mercados do país, já se mostravam com fissuras expostas. O Brasil continuava a elevar a dívida externa, não mais para financiar projetos de investimento, mas sim
para apenas rolar créditos anteriores. Isso eclodiu na crise de 1982, a qual prossegue até hoje, com recidivas cada vez menos espaçadas. |