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Celebração de mais para o crecimento de menos

José Carlos de Assis

Saíram os números oficiais do PIB do primeiro semestre de 2004. Como se previa, deu crescimento de 4,2% sobre o mesmo período do ano passado, quando estávamos em plena retração. É um crescimento pífio na comparação com outros países emergentes, com quase nenhum efeito sobre o desemprego, e que só justificaria a euforia com que foi saudado pelo Governo e pela mídia se houvesse uma indicação de que não se trata de vôo de galinha, mas estamos em plena fase de ascensão. Contudo, não estamos.

Quando se observa o crescimento numa base anual, até o fim de junho, sobre os 12 meses anteriores, a taxa cai para 1,7%. É ainda mais pífia que a acumulada no ano. Nesta mesma base anual, o consumo das famílias aumentou apenas 0,4% e o do Governo, 1,1%, enquanto a Formação Bruta de Capital Fixo, que mede aproximadamente o investimento, caiu 0,6%. Em resumo: cresce-se muito pouco, não se investe, e o pouco que se cresce não se vende integralmente, pois o consumo vai muito atrás da produção.

Vejamos como estão os demais países emergentes da América Latina e da Ásia. O jornal "Monitor Mercantil", num rápido levantamento, apurou que a Venezuela vai crescer neste ano 10,3%, o Uruguai 7,5%, a Argentina 6,5%, o Chile 4,9%. Se introduzirmos os asiáticos, é covardia: China, Índia, Rússia, Coréia do Sul, até a Turquia estão crescendo muito mais do que o Brasil. Nenhum desses países, contudo, tem uma taxa de desemprego tão alta quanto a nossa. Obviamente, o presidente Lula está delirando quando vislumbra o Brasil entre as sete ou os seis maiores economias. No seu governo, acabará em vigésimo.

Não pensem que aponto essas evidências de que não estamos em ritmo de crescimento sustentável por oposição ao Governo. Eu votei no presidente Lula e faço todo o empenho para que sua administração dê certo. Entretanto, oponho-me decididamente à política econômica conduzida por Palocci, que está completando o processo de destruição do Brasil iniciado por Fernando Henrique. Sim, temos a maior crise de desemprego e de subemprego de todos os tempos. O que o governo Lula faz em relação a isso?

Ainda não se descobriu uma forma de reduzir o desemprego que não passe pelo crescimento acelerado, a partir de pesados investimentos do setor público. O governo Lula absorveu dos neoliberais a idéia estapafúrdia de que se pode crescer fazendo mega-superávits primários, isto é, destruindo recursos tributários e poupança interna no circuito monetário e financeiro, sem qualquer efeito produtivo. Ao lado disso, taxas estratosféricas de juros premiam aplicações especulativas e mantêm os empresários longe da produção.

E tem mais. O crescimento que se verifica nas estatísticas do IBGE não é apenas baixo. É, em grande parte, ilusório. Deve-se ao fato de que a base de comparação de 2003 é muito baixa. De fato, no primeiro semestre do ano passado, tivemos queda do PIB. Uma tímida recuperação, que continua, começou no segundo semestre. Logo se verá que não tem fôlego, pois não há no mundo economia capitalista que possa crescer de forma sustentável fazendo superávit primário de mais de 5% do PIB e praticando uma taxa básica real de juros de 10%.

O grande efeito da taxa de crescimento de 4,2% é eleitoral. As pessoas não reagem apenas aos fatos. Costumam reagir também diante de expectativas. Na medida em que a imprensa bombardeia que estamos crescendo em ritmo elevado, muito gente passa a acreditar nisso, inclusive desempregados e subempregados que não vêem qualquer manifestação concreta de melhora de sua própria situação e dos vizinhos. Claro, chegará a hora em que novos dados esclarecerão a precariedade dos atuais. Para felicidade dos candidatos do PT, a eleição municipal já terá passado.

Acontece que a campanha da próxima eleição presidencial começa tão logo fechem as urnas das eleições de outubro próximo. E a estatística, que pode enganar muitos por algum tempo, não pode enganar todos por todo o tempo. Em fins de novembro, saem dos dados do terceiro trimestre. Em fevereiro de 2005, saem os dados do desempenho do PIB em 2004. Se forem tão bons quanto antecipa a propaganda oficial, vou me somar aos milhões que votarão pela reeleição de Lula. Caso contrário, vamos todos procurar uma alternativa, já que só os idiotas se iludem duas vezes com a mesma mágica.http://www.desempregozero.org.br

Texto originalmente publicado em http://www.desempregozero.org.br

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