Em 1983, a Shell descobriu o Campo de Camisea, no Peru, com reserva estimada de 400 bilhões de metros cúbicos de gás. Mas, atravessar a cordilheira dos Andes e
exportá-lo na forma de gás natural liquefeito tornava o empreendimento inviável. Um caminho seria exportá-lo para São Paulo (cerca da 4.000 km) e outros estados brasileiros. Mas era antieconômico. Para Porto Velho e
Manaus, também. Nem a demanda justificaria.
As privatizações serial-killer Em 1990, na Bolívia, com reservas de gás estimadas em 200 bilhões de metros cúbicos, começou-se o processo de privatizações, que culminou em 1995: a Amoco (British
Petroleum-Amoco-Atlantic), a Shell e a Exxon compraram as reservas.A Argentina, que possui estimados 600 bilhões de metros cúbicos de gás (Neuquen e Terra do Fogo), privatizou a Gás Del Estado em 1992.
Entre 1978 e 1983, houve crescimento espetacular na indústria petrolífera Argentina. Coincidiu com a crise do petróleo e a falta de reservas nos países do G7, cujas corporações formam o cartel das Sete Irmãs (hoje
apenas quatro, após fusões), além da Agip (italiana) e da Total e ELF (francesas). Assim, houve crescente pressão sobre Yacimientos Petrolíferos, da Argentina (YPF), e Gás Del Estado (desmembrada da YPF).
O governo argentino iniciou perniciosa política de preços, criando para as duas empresas sérios problemas financeiros. Enquanto isso, a mídia desencadeava campanha sobre a "ineficiência das estatais". No Brasil, a campanha começou no governo Sarney a manipulação da estrutura de preços contra a Petrobrás, a favor do cartel das Cinco Irmãs. A desestabilização articulada via preços
Diz o engenheiro argentino Victor Bravo: "O estranho é que as causas dos desequilíbrios eram perfeitamente corrigíveis, mas os diagnósticos não as contemplavam."Eram preços internos muito
favoráveis aos grandes consumidores; relação inadequada dos preços de petróleo e gás; contratos privados em que a YPF comprava gás de produtores privados mais caro do que revendia para Gás Del Estado, até cinco vezes
mais caro do que o gás das próprias reservas da YPF; compressão das tarifas com crescente carga de impostos; e leonino contrato com o consórcio internacional Cogasco para a construção e operação do gasoduto
Centro-Oeste, com condições péssimas para a Gas Del Estado. Assim, Gas Del Estado, "empresa com balanços positivos, com os melhores profissionais do estado, com muito poucos acidentes em comparação
internacional, com boa eficiência e ótimas perspectivas de futuro", foi privatizada. As reservas estimadas na época eram de 250 milhões de metros cúbicos de petróleo e 540 bilhões de metros cúbicos de gás. A auditora americana Gaffney Cline "achatou" para venda as reservas de óleo em 30%. Apesar da política de preços perniciosa imposta pelo governo, a Gas Del Estado apresentava indicadores de
eficiência superiores aos da British Gas e Gas de France. Privatizadas YPF e Gas Del Estado, petróleo e gás argentinos passaram às mãos da Shell, Repsol, Exxon, British Gas e outras empresas privadas, além da francesa
Total, já situada no país. Nos últimos dois anos, foram acrescentados 700 bilhões de metros cúbicos na Bolívia dos quais 300 bilhões descobertos pela Braspetro-Petrobrás. |