Correio da Cidadania - Que balanço você faz do governo FHC? Maria Victória -
O balanço que faço é o pior possível, porque as opções feitas para conseguir o mínimo que deveríamos efetivamente ter de bom, como o controle da inflação e a estabilização da moeda, resultaram em um custo social altíssimo. Do ponto de vista econômico, houve desnacionalização da indústria brasileira, desemprego, recessão, aumento brutal da concentração de renda. Do ponto de vista político, a expressão que o presidente usou, de que iria sepultar a Era Vargas, significou o desmonte do Estado, a transformação de um Estado, que mal ou bem tinha políticas sociais, principalmente para os trabalhadores, em um Estado Mínimo, o que implicou no abandono das políticas sociais mais importantes, como a agrária, de saúde, de educação, de geração de emprego. Uma das recentes conseqüências dessa política é a tal flexibilização da legislação trabalhista, que terá um custo e um impacto social tremendos sobre os trabalhadores e sobre a economia informal.
Cite-se, ademais, a ausência, apesar de muito trombeteada, de uma política fiscal clara, que enfrente a sonegação dos recursos. Essa política acaba onerando mais a classe média e o assalariado e, além
disso, dá proteção aos ricos, que tiveram seu momento de grande esplendor com o PROER. Outro dado essencial a ser lembrado é o total descaso desse governo - feito com um número elevado de
professores - pelo ensino superior, o que redundou em greves e relações extremamente tensas em diversas questões, como, por exemplo, nas discussões sobre verba para pesquisa. Esse abandono das universidades federais
terá conseqüências terríveis para as próximas gerações. E observamos ainda, neste último ano, a crise energética brutal, que é fruto do absoluto descaso e incompetência do governo em relação à política energética. Gostaria de acrescentar que devemos reconhecer alguns avanços desse governo em relação à temática dos Direitos Humanos. Se há alguma coisa boa que aconteceu foi a nomeação recente de Paulo Sérgio Pinheiro
para a Secretaria de Direitos Humanos. Vamos esperar que ele tire do papel o plano nacional de Direitos Humanos e o coloque em prática, pois o plano é excelente, mas há enormes dificuldades de implementação.
Correio da Cidadania - Quais são as probabilidades de continuísmo, a partir da reciclagem da base de sustentação do governo? Maria Victória - Não se pode subestimar a força das classes dominantes.
Mesmo com um avanço considerável da esquerda, a classe dominante ainda tem muitos recursos, na medida em que ela controla, por exemplo, toda a estrutura orçamentária e tem poder para fazer nomeações. Costuma-se dizer
que o presidente precisa de governabilidade, de apoio no Congresso, mas não existe na História do Brasil um presidente que tenha obtido tanto apoio do Congresso, para tudo. Acho que a base do governo, apesar de todas
essas crises, encontrará uma saída para continuar mandando, embora eu veja com muito otimismo o crescimento da esquerda e, principalmente, uma certa conscientização popular contra o governo.
Correio da Cidadania - Quais são, a seu ver, as rupturas necessárias? Maria Victória - Eu só acredito em rupturas reais quando se enfrentar o sistema capitalista. Não mexendo nos suportes, no
sistema capitalista que impõe esse modelo de Estado Mínimo, não haverá possibilidade de rupturas. É por isso que possuo tanto otimismo em ver esses movimentos anti-globalização em todo o mundo, e aqui no Brasil também,
com as atividades do Fórum Social Mundial. Vejo com muito temor, mas ao mesmo tempo com muito entusiasmo, a ação de um movimento como o MST. Muito temor, pela reação que ele pode provocar. Porém, com
muito entusiasmo, uma vez que é o movimento mais importante que nós temos. É importante ter consciência de que o Brasil, em termos de política mais ampla, está na rabeira dos EUA em relação a essa nova
ordem mundial após os atentados. O Brasil deveria ter tomado uma posição mais forte contra as imposições norte-americanas em relação à guerra no Afeganistão e, principalmente, em relação à crise do Oriente Médio. E
aqui, na América do Sul, deveria ter sido bem mais intensa a defesa do Mercosul. Correio da Cidadania - Como você vê a oposição hoje? Ela será capaz de fazer essas rupturas? O PT, por exemplo, seria
uma alternativa de mudança? Maria Victória -
Eu acho que o Partido dos Trabalhadores seria certamente uma alternativa de mudança, mas com muita dificuldade. O PT não poderá governar prometendo rupturas ou soluções rápidas para os problemas. A situação é muito mais difícil do que se possa imaginar num primeiro momento, como podemos observar no caso da prefeita Marta Suplicy que, após um ano de mandato, ainda enfrenta problemas terríveis, que ela e sua equipe imaginavam resolver mais rapidamente.
Correio da Cidadania - E o programa do Instituto da Cidadania, não seria muito tímido diante das mudanças necessárias? Maria Victória -
É sem dúvida um programa tímido. Acho que ele acabou seguindo aquela máxima de que a política é arte do possível. Para mim, a política é a arte do justo e do necessário. Correio da Cidadania - A
partir dessa análise, quais são as tendências do jogo sucessório para as eleições do próximo ano, em sua opinião? Maria Victória - Acho que a possibilidade de vitória do Lula não está
descartada, mas ela dependerá de alianças nos estados, principalmente. Afinal, Lula tem 30% das intenções de voto, mas os outros candidatos têm, somados, 70% dessas intenções. Dessa forma, não podemos
menosprezar a capacidade dos "anti-mudança" de se aglutinarem. Acredito que a candidatura da Roseana é de chantagem, para chegar até um certo ponto, ser retirada e se fazer a imposição de um outro nome.
Todavia, por enquanto, ela está cumprindo um papel muito importante para os interesses da direita. |