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FHC, por 59 brasileiros ilustres

"Ou o Congresso põe ponto final no reiterado desrespeito a si próprio e a Constituição, ou então é melhor reconhecer que no País só existe um poder de verdade, o do presidente. E daí por diante esqueçamo-nos também de falar em democracia".
Senador Fernando Henrique Cardoso na Folha de S.Paulo, em 7 de junho de 90

O governo Cardoso nunca esteve tão vazio de idéias e propostas e tão próximo do meio-fio. O resto ele confia que será esquecido, não por seus dotes, mas porque o rolo-compressor corre a seu favor. A longo prazo talvez o presidente Cardoso acabe se transformando num personagem grotesco da nossa História.

José Luís Fiori

Franco Montoro

Em surpreendente e brilhante artigo na Folha de S.Paulo, o deputado Franco Montoro, presidente de honra do PSDB, denunciou "o presidencialismo autoritário" (um retrato do governo FHC):

1) "Nosso sistema de governo vem de longa tradição autoritária, centralizadora e elitista. Em primeiro lugar está o tradicional poder centralizador e unipessoal do chefe do Executivo. Ele é, como lembrava Ruy Barbosa, o grande eleitor, o grande nomeador, o grande contratador, além de aplicador das verbas orçamentárias";

2) "Nosso presidencialismo histórico tende a ser o regime do poder unipessoal e das decisões a portas fechadas, num convite permanente ao fisiologismo político, como diz expressamente o programa de meu partido, o PSDB";

3) "O poder concentrador facilita o clientelismo, a corrupção e o desvio de recursos públicos. Além disso, quando um só homem detém o poder de nomear, contratar e comandar verbas, surgem grandes ambições políticas e financeiras.

A conquista do poder passa a ser bom negócio e bom investimento. O que talvez explique a presença de grandes fortunas na disputa do Executivo em nossa vida pública ..." (a ironia das reticências é do Montoro).
Montoro conhece bem FHC. Sabe a diferença entre ética e ótica.
                                                         
Na Folha de S.Paulo em abril de 1998

Glauber Rocha

A Teoria da Dependência, que o chileno Faletto escreveu em 1967 e os dois assinaram, era apenas um cursinho de traição nacional que Fernando Henrique fez para ser recebido nos EUA e ganhar a carteirinha de Joaquim Silvério dos Reis que o ceva até hoje.

Depois de seis anos de governo tucano, no vergonhoso ranking da falta de saúde pública no mundo, o Brasil é o 125º entre 191. Abaixo de El Salvador e Butão. E muito abaixo da Colômbia.

Glauber Rocha tinha razão. Fernando Henrique é um canastrão. E nos enganou a todos. Já em 1970, o saudoso Glauber pintava o retrato de FHC:

"Fernando Henrique é um sub-cientista social, não é, nunca foi, nem será esquerdista. FHC é apenas um neocapitalista, um kennedyano, um entreguista, responsável pelas patrulhas ideológicas contra os intelectuais e artistas revolucionários e nacionalistas. O pensamento de FHC nega o Brasil".

por Sebastião Nery na Tribuna da Imprensa

Aureliano Chaves

Príncipe, assim batizei Fernando Henrique, no Peru, na presença do magnífico Darcy Ribeiro. Uma tese que o Cebrap não aceita e por isso não consigo me entender com o príncipe: a revolução de 64 começou na Guerra do Paraguai. Fernando Henrique é apenas um neocapitalista, um entreguista.

Gilberto Vasconcellos

Segundo Aureliano Chaves: "Os militares ficaram 21 anos numa ditadura de generais, mas sem a figura do ditador permanente. Sempre fizeram rodízio. Tiveram escrúpulo de tocar na Constituição em benefício próprio, para continuar. Fernando Henrique fez o que eles não tiveram coragem de fazer".

"Fernando Henrique e seu governo dizem que o poder público não tem capacidade de investir e por isso estão vendendo e entregando tudo. Vendem o que está feito, como os sistemas de telecomunicações e de energia. E agora, como os que ganharam as usinas elétricas não investem, para não faltar energia o governo vai construir 49 usinas termoelétricas, todas com dinheiro público, nenhuma com dinheiro privado. Depois de construídas com dinheiro do governo, vão entregar essas também. Eles são assim".
                                       
Na Tribuna da Imprensa

Janio de Freitas

O salto mortal da moralidade pública no Brasil de 36°. para 49°. entre os 90 países cujo índice de corrupção é pesquisado pela Transparência Internacional, é uma conquista para alguns e um desagravo para os demais. É uma conquista do despudor com que a Presidência da República se faz presidência da corrupção, aplicando a política de bloqueio às investigações, e portanto às possíveis conseqüências judiciais, tal como faz sua política econômica para conter a inflação. Ambas são políticas de governo. E toda política de governo é política do presidente da República.

Aparece a gravação de um ministro e um presidente do BNDES, tramando a fraudulência de uma privatização gigantesca, o presidente vai a público dizer que "apenas procuravam o melhor negócio para o país". Surgem impressões digitais da corrupção na sala ao lado da sua, ali funcionava, e como e quanto funcionava, o assessor de sua "mais completa confiança".

A pesquisa é desagravo aos procuradores chamados, pela boçalidade comprometida, de nazistas e crias da ditadura, exatamente por agirem contra os nazistóides e outras crias da ditadura que não querem investigações sobre o que fizeram para situar o Brasil como uma das grandes indecências no índice mundial de corrupção.

Impedem CPIs, bloqueiam investigações, protegem o sigilo de contas e comunicações comprometedoras; atacam os que têm procuração da sociedade para agir contra a improbidade e os ameaçam com mordaças, se persistem em seu dever.

Folha de S.Paulo

Gilberto Dimenstein e
Josias de Souza

A candidatura de FHC à Presidência da República começou a surgir no meio de um brinde no estilo japonês, em Manhattan, centro de Nova Iorque. As taças guardavam o vinho tinto francês Mouton Cadet, escolhido para acompanhar um souflê de queijo, tendo como cenário a residência do embaixador do Brasil na ONU, Ronaldo Sardenberg.

Para derrotar o "mito Lula", FHC montou a mais profissional campanha eleitoral já realizada no Brasil.  Os documentos de marketing a que tivemos acesso indicam que a campanha de Fernando Collor, festejada como o máximo da sofisticação tecnológica, pareceria hoje coisa de amador.

A dificuldade de FHC no contato direto com o "povo", explica-se, em parte, por sua própria dificuldade de contato físico.  Admitiu que o apavorava, essencialmente, o cheiro de suor que exalava dos abraços apertados nos comícios.

Não gosta de dizer "não" e prefere evitar conflitos, o que explica, em parte, a flexibilidade com que transita na política.  Foi simultaneamente confidente de Lula e Collor.  Ambos sentiam que podiam tê-lo como aliado.

Desde 1992, quando Paulo Maluf virou prefeito de São Paulo e foi visto como um forte candidato à direita, contrastando com Lula, nasceu a idéia da "terceira via". Logo que virou chanceler, FHC dizia a seus assessores mais próximos: "quem preencher o perfil da moderação pode ganhar essa eleição".
O filósofo José Arthur Gianotti, seu amigo de juventude, o estimulava a pensar nessa hipótese, argumentando que a sociedade, cansada de tantas mudanças, promessas e choques, rejeitaria um salvador da pátria.  Tenderia para alguém previsível, que passasse a imagem de estabilidade.
                                          
Do livro A História Real, editora Ática

Barbosa Lima Sobrinho

A vaidade se tranformou no grande problema da política brasileira. As pessoas se colocam acima do país e das necessidades do país. Os projetos pessoais acabam se tornando mais importantes que os projetos nacionais. Isso é muito ruim para a sociedade como um todo.
O FHC, que é uma pessoa culta e consciente dos problemas do Brasil, também se deixa levar por este discurso, que é tão maléfico. Não votei nele, e ele nunca consehuiu me inspirar confiança. Tinha esperança, por sua formação, mas ao mesmo tempo muita desconfiança.
                                                                           
Em O Capital Cultural

Tendo ou não pedido que esquecessem o que havia escrito antes, o fato é que o Dr. Jekyll tomou a poção do poder e transformou-se no Mr. Hyde que conhecemos. Bem verdade que, quando viaja, a distância funciona como antídoto do veneno e ele readquire o discurso antigo, tornando-se oposição a ele mesmo.

Carlos Heitor Cony

A pouco mais de dois anos do fim de seu segundo mandato, mas ainda com esperanças de descolar um terceiro, seja em regime presidencialista, parlamentarista ou qualquer outro que lhe sirva ao propósito de ficar no poder, o presidente da República já tem engatilhada a frase com que enfrentará a história.

"Esqueçam o que eu fiz!" Como Dom Casmurro, que na velhice quis atar as duas pontas de sua vida, reconstruindo a casa da rua Mata Cavalos da sua infância, o presidente deseja voltar ao passado - no qual, sinceramente ou não, por convicção ou oportunismo, defendia causas sociais e moralidade de costumes políticos.

Com o fim do mandato, ou em campanha para obter um novo, ele já terá pronto o slogan com que enfrentará a nova etapa de sua esforçadíssima carreira política: "Esqueçam o que eu fiz!".

Esqueçam as privatizações catimbadas, esqueçam a âncora cambial que desmantelou o parque industrial brasileiro, esqueçam a ajuda aos bancos falidos e operados fraudulentamente, esqueçam o projeto Sivam, a compra dos votos para a reeleição, esqueçam sobretudo a minha alacridade quando pensava estar governando a Suíça.

Desde criancinha, o presidente sabe que o povo brasileiro precisa de educação, saúde, casa, trabalho e segurança. Num momento de insanidade eleitoral, prometeu tudo isso, mas pediu que esquecessem. Chegará o dia em que pedirá o esquecimento do esquecimento. Não precisaria nem pedir: será esquecido mesmo. Ou lembrado como simples aventureiro do poder.
                                                                             
Na Folha de S.Paulo

Marilena Chauí

Você tem uma teoria completa sobre o país, e sobre a região, que exclui a classe trabalhadora. Então, não acho que precisa esquecer o que foi escrito. Precisa é ler melhor o que foi escrito.

Se você pegar o texto da teoria da dependência, está tudo lá. Como é montada a explicação através da teoria da dependência? A dependência tem o famoso banquinho de três pés: o capital estrangeiro, a burguesia nacional e o Estado. Você tem uma teoria sobre a América Latina, sobre a dependência, na qual a classe trabalhadora nunca entrou. Ela não faz parte do contexto da sociedade, não faz parte da história, não existe.

Tem uma tese do FHC sobre a escravidão na região meridional, na qual o escravo é dito inconsciente, alienado, passivo, tem lá o senhor de escravo, o escravo nunca. E tem todos os estudos contemporâneos feitos sobre a escravidão que mostram o escravo como sujeito histórico. Mas está lá, sempre esteve lá.

A surpresa para mim, e me manifestei publicamente, foi a aliança com o PFL. Porque uma coisa é você explicar as coisas do país sem explicar a classe operária, explicar a história da escravidão sem colocar o escravo, achar que há uma terceira via que não é esquerda nem direita, até aí dá, você acompanha uma lógica de pensamento.

Minha surpresa não é tanto que ele fale na terceira via, estou me preparando, lendo tudo o que posso sobre a terceira via. Não é tanto pelo fato de ele se considerar parceiro do Tony Blair e do Clinton, cada um se vê como quer.

O que não dá é que essa personalidade e esse grupo em volta dessa personalidade comecem a aceitar governar com Marco Maciel, com ACM, com Inocêncio, com Renan Calheiros, isso me deixa angustiada.

Me deixa indignada. Fico indignada que ele se preste a fazer para a direita o serviço que a direita faria sozinha, não precisava dele para fazer isso.

Chico Buarque Hollanda, Maria Victória Benevides, Miguel Arraes, Guido Mantega, Dora Kramer, José Arbex Jr., Correio da Cidadania, Delfim Netto, Maria da Conceição Tavares, João Ubaldo Ribeiro, Aloizio Mercadante, Osiris Lopes Filho, Carlos Chagas, Roberto Requião,
Grupo Tortura Nunca Mais.

Luiz Gonzaga Belluzzo, Gal Helio Lemos, II Fórum Social Mundial, Reinaldo Gonçalves, Aloysio Biondi, Celso Brant, Bautista Vidal, Cristovam Buarque, Wladimir Pomar, Celso Furtado, Elio Gaspari.

Almte Gama e Silva, Lula, Luiz Felipe de Alencastro, Verissimo, Millôr Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Rogério Cezar Cerqueira Leite, Angeli, Sebastião Nery.

 José Dirceu, Xico Sá, Carlos Brickmann, Villas Bôas Corrêa, Miro Teixeira, Ciro Gomes, Leonardo Boff.

Leonel Brizola, Paulo Nogueira Batista Jr., Gilberto Vasconcellos, Luís Nassif, Luiz Werneck Vianna, Moacir Werneck de Castro, Mauro Braga e Redação.

Franco Montoro, Glauber Rocha, Aureliano Chaves, Janio de Freitas, Gilberto Dimenstein e Josias de Souza, Barbosa Lima Sobrinho, Cony, Marilena Chauí.

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