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FHC, por 59 brasileiros ilustres

"Ou o Congresso põe ponto final no reiterado desrespeito a si próprio e a Constituição, ou então é melhor reconhecer que no País só existe um poder de verdade, o do presidente. E daí por diante esqueçamo-nos também de falar em democracia".
Senador Fernando Henrique Cardoso na Folha de S.Paulo, em 7 de junho de 90

Leonel Brizola

Numa hora de crise como a que nos encontramos, os fatos falam mais que quaisquer palavras. E ocorreu na última quinta-feira um episódio que, mais do que qualquer análise ou opinião, revela o comportamento do homem que pretende ter o apoio do povo brasileiro para continuar na Presidência. Às 13h45min daquele dia, Fernando Henrique disse à população, através do rádio e da televisão, que não havia justificativa para aumentar mais os juros àquela altura já fixados no nível absurdo de 29,75%. Disse mais: que não iria "sacrificar o país por causa da ganância". Pois bem: às 22h30min do mesmo dia anunciou-se que o Governo Fernando Henrique decidira elevar os juros para inacreditáveis 49,75%, quase o dobro daquilo que ele próprio dissera!, menos de nove horas antes ser o "limite máximo"!

Supor que isso foi feito pelo Ministro da Fazenda ou pelo presidente do Banco Central à revelia ou contra a vontade de Fernando Henrique, seria o impensável: o Presidente não governa mais, quando não decide sobre um ato que afeta de maneira tão grave a Nação!

Portanto, não há como fugir dessa evidência: o Presidente faltou com a palavra empenhada publicamente, diante da Nação. É este o fato real, concreto, irrecusável, revelando que o Sr. Fernando Henrique diz já não merece maior credibilidade. Aliás, tido soa falso no que vem dizendo ao povo brasileiro. Diz que vai criar empregos? Falso, porque ele sabe que o desemprego vai subir - e muito - com a alta dos juros que determinou. Diz que vai investir em educação, saúde, estradas?

Um homem assim, a quem a ambição e a incompetência fizeram conduzir o país a uma situação insustentável e que, agora, age de forma pusilâmine e cínica diante do desastre iminente, pode pretender continuar? Para que, senão por simples obsessão continuísta?

Falso, porque ele próprio determinou cortes gigantescos no orçamento do país, inclusive na área social, para jogar mais bilhões no pagamento dos juros de uma dívida que o seu Governo elevou de R$ 60 para R$ 400 bilhões!

Diz que não vai baixar um pacotaço após as eleições? Pelos antecedentes, só os muitos ingênuos podem acreditar que, depois de reeleito, não fará aquilo que até seus assessores reconhecem ser inevitável. 

Felizmente o povo brasileiro tem, daqui a 20 dias, a chance de substituí-lo, pelo voto democrático e legítimo, instituindo um Governo honesto, firme, verdadeiro, que possa fazer o Brasil atravessar, com um mínimo de sacrifícios, a crise a que Fernando Henrique nos atirou. Lula tem a honradez, a sinceridade e o amor ao Brasil necessários para isso.
                     
Transcrito da página do PDT On Line, em setembro de 1998

Paulo Nogueira Batista Jr.

O ministro Malan chegou a dizer que o crescimento sustentável não é possível com um sistema tributário que discrimina o produtor nacional na competição com produtores localizados em outros países. A dissonância entre o discurso e a prática do governo em matéria tributária chega à esquizofrenia.

E o governo uma vez mais manda pacote fiscal ao Congresso onde "grande parte dele consiste justamente do aumento expressivo de tributos cumulativos: Cofins e CPMF. Ao transformar a CPMF em IMF, torna-o permanente e desmonta  a proposta "imperiosa" do ministro Malan em reduzir o "custo Brasil".

Uma das coisas mais confusas e contraditórias é a movimentação do governo federal na área tributária.

Evidentemente, tudo isso onera mais as exportações brasileiras e facilita a penetração das importações no mercado interno. Uma beleza para um país que precisa crescer, gerar emprego e reduzir o desequilíbrio nas contas externas!
O ceticismo ameaça transformar-se em cinismo. A solução talvez seja acionar a "bomba atômica" e mobilizar o próprio presidente da República.
Como diz o Luís Paulo Rosemberg, nem os mais insistentes e obstinados detratores de FHC podem negar-lhe uma qualidade: a capacidade de persuasão. Tivemos recentemente um exemplo dessa sua virtude. Em 1998, Fernando Henrique operou a façanha de reeleger-se com a promessa de acabar com o desemprego que ele próprio criou!
É como aquela história do sujeito que assassinou pai e mãe, foi a julgamento e resolveu apelar para a clemência do júri sob a alegação de que era órfão.
                                                    
Publicado em dezembro de 1998 na Folha de S.Paulo

Gilberto Vasconcellos

Doutor em Sociologia pela USP em 1977 e autor de diversos livros, entre os quais "Collor: a cocaína dos pobres" e "Itamar, o predestinado", o professor Gilberto Vasconcellos não tem uma postura analítica tradicional em sua disciplina. Em seu livro, "O príncipe da moeda", o alvo de Gilberto é o Presidente Fernando Henrique Cardoso. Alcunhado ironicamente de príncipe por Glauber Rocha, FHC tem sido acusado pela oposição de agir de forma inteiramente diferente de seus tempos de sociólogo opositor do Governo militar. "O príncipe da moeda" aponta na direção contrária: para Gilberto, não há diferença entre os discursos.

No livro " O príncipe da moeda" lanço a formulação de que FHC sempre foi aquilo que ele é, não há um corte epistemológico entre o FHC jovem e o FHC velho. Se isso é verdade, por que ele, um proto-direita, seduziu toda a esquerda? Como obteve notoriedade de esquerdista, com um pensamento que nada tem de esquerda: ele resumiu o golpe a uma questão secundária, a do autoritarismo. Dizer isso e se opôr a isso não é ser de esquerda. Ele nunca toca na ferida, a sangria do lucro para fora do Brasil, a sangria imperialista. Difícil é explicar isso, que ainda tem que ser mais pesquisado. Entra em jogo não só o sistema intelectual universitário, como a sua ligação com os movimentos internacionais.

O grande engodo da cultura política brasileira foi o divórcio entre democracia e soberania nacional. No período pós-64 acreditou-se que a palavra de ordem correta seria batalhar pelas "liberdades democráticas", bastando para isso eliminar o nefando "autoritarismo". Este foi eliminado em 1989 com o voto direto. Assim, sob o reinado da democracia , o país foi vendido às corporações multinacionais e o povo não melhorou de vida. O léxico da política repete a retórica da insistente "cidadania" e da "sociedade civil", deixando à sombra a questão da soberania nacional, substituindo a  palavra "povo" por "população".
FHC concede privilégios inimagináveis ao imperialismo, reatualizando o esquema colonizado de JK com estabilidade monetária, democracia e capital estrangeiro, porém levando aos últimos limites a desestatização da sociedade brasileira e o desmonte das Forças Armadas.

O monopólio classista da terra persiste junto com a aparelhagem midiática através da qual o PFL se gaba de sua modernidade pró-imperialista, entregando a energia e finanças do páis às gangues internacionais.
Matéria paga do imperialismo, a TV mostra aos estamentos multinacionais que a armadilha financeira do Plano Real é legitimada pelo voto popular duas vezes durante a década de 90, tornando impotente a oposição chamada de esquerda.
                                                          
Na Tribuna da Imprensa

Luís Nassif

Intoxicado de vitória no Congresso, FHC abre como ninguém as entranhas do país ao poder mundial imperialista, sendo coerente com a vontade da burguesia industrial paulista e do coronelismo latifundiário nordestino.

Menem e FHC foram eleitos em cima de uma bandeira única, a estabilização econômica. Acomodaram-se em políticas cambiais que garantiam a tranquilidade do presente -não o futuro. Adiaram o mais que puderam a solução dos problemas internos. E manifestaram o desprezo absoluto pelos interesses de seus eleitores -e enorme massa de cidadãos que sempre paga a conta do banquete, mas que tem o direito, a cada quatro anos, de substituir o dono do restaurante. FHC tem mais méritos que defeitos. Mas falta-lhe o componente básico do líder nacional: a falta de entusiasmo em relação a qualquer tema que diga respeito aos interesses diretos de seu povo.  O que lhe sobra em intelectualismo pouco prático falta-lhe em identificação com as aspirações básicas de seu povo. O povo não quer pão, apenas solidariedade. E até isso lhe é negado.

De vez em quando, FHC devia se vestir de mendigo e deixar o Palácio, para escutar, diretamente do povo, o que se pensa dele. Vai se espantar com a intensidade do ódio -a palavra é esta- que lhe é devotado por parcelas cada vez mais expressivas da população.

O tempo político de FHC está prestes a se esgotar. Ou articula um plano claro de defesa dos interesses nacionais -que seja entendido pelo povo- ou não haverá mais retorno, nem que a economia se recupere mais à frente.
                                                                             
Na Folha de S.Paulo

Luiz Werneck Vianna

O segundo mandato de FHC nasceu morto para mim. Se ele se diferenciar do anterior, FHC pode se credenciar a ser um operador de sua próxima sucessão. Mas se repetir o mandato, se não se mover da centro-direita para a centro-esquerda, formada pelo eixo Covas-Itamar, vai ser levado ao isolamento.

O governo não tem sido orientado para o tema da produção e sim para o mundo das finanças. Além disso, FHC se deixou levar pela idéia de que nos conduziria ao progresso e à modernização caso abrisse as porteiras do país. A crise resulta disso. A nova esquerda precisa devolver aos brasileiros a idéia de que a sua civilização é exitosa, de que sua cultura é singular, de que nossa nação é uma das mais bem-sucedidas do Terceiro Mundo.

Nossos grandes estadistas recentes, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, foram homens profundamente identificados com a valorização do Brasil e dos brasileiros.

Esse governo atual é descrente na nossa história e nos nossos valores. Denuncia corporativismo em tudo, vê perversão burocrática em tudo. A sanha privatizante parte da idéia de uma civilização de indivíduos e não uma cultura de cidadãos. Ou seja, só enxerga como valor o indivíduo, os bens materiais, a vida enquanto consumo, e não o cidadão, com sua cultura cívica, suas virtudes públicas.
                                                               
No Jornal do Brasil

Moacir Werneck de Castro

A "filosofia jurídica" do governo FHC, tal como foi descaradamente exposta no depoimento de EJ Caldas a propósito de suas conversas com o juiz Lalau, não era apenas condenável sob o aspecto ético.

Era, e é, pior. Além do que resta investigar com respeito a tráfico de influência, manejo de fundos de pensão, negócios milionários à sombra do poder, cumpria apurar tudo sobre o real significado dessa estranha "filosofia", que note-se, o presidente da República não repudiou em nenhum momento.

O governo FHC está sempre pronto a acusar a esquerda e seus partidos de se orientarem pelo princípio de que o fim justifica os meios. Agora está aí a prova de que ele é quem se serve dessa tática quando lhe convém, segundo os ditames de uma política econômica notoriamente imposta de fora, pelo FMI.

Nesse caso concreto, mediante conluio com um juiz ladrão e ex-informante do DOI-CODI. Meios sujos para um fim igualmente sujo.
                                                                     
Jornal Público

O Ministério Público, sejam quais forem as falhas de que já fez a devida autocrítica, esteve certo quando sustentou, perante a mesma subcomissão do Senado, que a nomeação de juizes classistas monitorada por EJ precisa ser investigada porque fere a independência dos poderes e constitui um fato "gravíssimo", como já havia antecipado o senador Pedro Simon.

Mauro Braga e Redação

Sobre o assunto "vida de rico é muito chata". A declaração do presidente Fernando Henrique leva a pensar, como disse o líder do PT, José Dirceu, que FH perdeu o senso. Não é possível que um presidente da República de um país pobre como o Brasil dê uma declaração dessas e depois, tentando consertar a bobagem monumental que cometeu, tente justificar dizendo que ele acha "que a vida de rico é chata, pois não sou rico".

O fato é que o presidente da República que faz uma declaração dessas ou não sabe o que está dizendo, o que não é o caso, ou então está tão embriagado pelo poder que perdeu totalmente o contato com a realidade do país. O mais trágico disso tudo é que teremos que passar mais quatro anos ouvindo regularmente baboseiras como essas.

O Brasil todo pensou que quando Fernando Henrique disse que era para esquecerem o que ele tinha dito no passado isso se referia aos outros, à mídia, mas agora vemos que ele estava se referindo também a si próprio, pois esqueceu tudo o que foi e o que aprendeu. Esqueceu, por exemplo, que vive em um país miserável, e que sua aposentadoria de professor de mais de R$ 5 mil, é algo a que só a classe média alta tem acesso.

Fora isso, nosso presidente tem investimentos, pelo menos uma fazenda e imóveis, o que o coloca na posição dos 1% de brasileiros que podem se gabar de ter mais de um milhão de dólares. Por enquanto ficamos só no que sabemos que Fernando Henrique tem declarado, o que certamente deve ser uma ponta do iceberg do não declarado ao fisco.
                                             
Na Tribuna da Imprensa

Chico Buarque de Hollanda, Maria Victória Benevides, Miguel Arraes, Guido Mantega, Dora Kramer, José Arbex Jr., Correio da Cidadania, Delfim Netto, Maria da Conceição Tavares, João Ubaldo Ribeiro, Aloizio Mercadante, Osiris Lopes Filho, Carlos Chagas, Roberto Requião,
Grupo Tortura Nunca Mais.

Luiz Gonzaga Belluzzo, Gal Helio Lemos, II Fórum Social Mundial, Reinaldo Gonçalves, Aloysio Biondi, Celso Brant, Bautista Vidal, Cristovam Buarque, Wladimir Pomar, Celso Furtado, Elio Gaspari.

Almte Gama e Silva, Lula, Luiz Felipe de Alencastro, Verissimo, Millôr Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Rogério Cezar Cerqueira Leite, Angeli, Sebastião Nery.

 José Dirceu, Xico Sá, Carlos Brickmann, Villas Bôas Corrêa, Miro Teixeira, Ciro Gomes, Leonardo Boff.

Leonel Brizola, Paulo Nogueira Batista Jr., Gilberto Vasconcellos, Luís Nassif, Luiz Werneck Vianna, Moacir Werneck de Castro, Mauro Braga e Redação.

Franco Montoro, Glauber Rocha, Aureliano Chaves, Janio de Freitas, Gilberto Dimenstein e Josias de Souza, Barbosa Lima Sobrinho, Cony, Marilena Chauí.

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