1a. Página Opinião Em Tempo
Economia Mundo História
Brasil À Deriva Papo

 

FHC, por 59 brasileiros ilustres

"Ou o Congresso põe ponto final no reiterado desrespeito a si próprio e a Constituição, ou então é melhor reconhecer que no País só existe um poder de verdade, o do presidente. E daí por diante esqueçamo-nos também de falar em democracia".
Senador Fernando Henrique Cardoso na Folha de S.Paulo, em 7 de junho de 90

José Dirceu

O governo FHC, seguindo a política de Collor, abriu a nossa economia de forma errada e num ritmo equivocado. Ficou evidente que não exigimos reciprocidade dos países desenvolvidos na abertura de nosso mercado e não preparamos o país para a competição monopolista e para o protecionismo que predominam nos EUA, no Canadá e na União Européia.

Outro fato, o repúdio da sociedade e o desgaste do governo FHC e dos partidos que compõem a coalizão do governo no episódio da eleição das mesas da Câmara e do Senado. A sociedade nunca aprendeu tanto em tão pouco tempo.

Pôde assistir à decomposição moral e política da aliança conservadora: ficaram evidentes os métodos aéticos utilizados

São os mesmos que se negam a rediscutir as suas descaradas políticas de subsídios agrícolas e os protecionismos sanitário, comercial e, agora, ideológico que imprimem por meio da hipócrita defesa do ambiente e os direitos dos trabalhadores e sociais - que recusam para os imigrantes e agridem, ao apoiar as políticas econômicas e os ajustes impostos pelo FMI a nossos países.

pelos partidos governistas e as graves denúncias de compra de voto, ontem, para a reeleição de FHC; hoje, para a eleição do presidente da Câmara.

É visível a degradação das práticas políticas do governo FHC; esperamos que, em 2002, o povo responda a isso nas urnas.
                                                                           
Na Folha de São Paulo

Xico Sá

Acossado por denúncia de tudo quanto é lado, o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou o barco correr, administrou seguidas operações de "abafa", afagou a politicalha - afinal de contas "todo homem tem o seu preço" - e, por último, negociou o veto à CPI da Corrupção, rolo com os parlamentares que teria custado, de acordo com a sangria no Orçamento, algo em torno de R$ 1,2 bilhão, com b de bola mesmo.
Mas ainda não bastaram as seguidas transações.
Uma coisa ainda incomodava a vaidade presidencial. As pesquisas de opinião, como a última do Datafolha, diziam que FHC era mesmo tolerante com as maracatuais.

Incomodado, o príncipe narcisista então chamou os magos do marketing palaciano.
Tiveram uma idéia. Ontem, o plano foi revelado: o governo criou uma corregedoria especial para o combate à corrupção.

Corregedoria é feita para pegar roubo de clipes e papel higiênico.

Duvido que um dia convoque, nem que seja para enganar os bestas, o sr. Eduardo Jorge, ex-todo-poderoso secretário particular de FHC. Duvido que examine os papéis do dossiê Caribe (ou Cayman).
                                                                       
No Diário Popular On Line

Carlos Brickmann

Não importa: faça o que quiser, o senador ACM já sofreu uma tremenda derrota: ele, que há poucas semanas era candidato à Presidência da República, escolhe hoje a melhor maneira de tentar sobreviver.
O problema de ACM foi subestimar Fernando Henrique. O presidente é cordato, é suave, é macio, é implacável. Maluf se jogou contra ele em 98 (no caso Cayman) e está  isolado até hoje, com trânsito zero em Brasília. Ciro Gomes tem carisma, mas está preso num partido pequeno, sem alianças, sem tempo na TV, lutando para ter o apoio do PTB — uma legenda que é o contrário do que ele prega. ACM sobreviveu e cresceu até que, num encontro com procuradores, tentou colocar um punhal nas costas do presidente. Neste momento, seu mundo caiu.
Fernando Henrique age com frieza e determinação. Não hesitou em livrar-se de velhos amigos — Eduardo Jorge, Clóvis Carvalho, Mendonça de Barros, Bresser Pereira, mantendo-os embora em seu círculo de amizades — ou em liquidar politicamente outros amigos, como Andrade Vieira, seu primeiro financiador. Se age assim com os amigos, por que os inimigos teriam melhor sorte?
Só Itamar Franco, dos antigos amigos que viraram adversários, consegue sobreviver.
Mas Itamar é um caso único, que só quem assistiu ao filme Forrest Gump consegue entender. Em todos os outros casos, Fernando Henrique liquidou os adversários — até mesmo os que, como ACM, pareciam ser seus senhores.
                                                                       
No Diário Popular On line

Villas Bôas Corrêa

As manchetes dos jornais, o destaque dos noticiários de televisão nos últimos três dias registram declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso recomendando aos aliados que dêem uma folga às intrigas políticas e se empenhem em restabelecer a    saudável rotina da normalidade para que o governo possa dedicar-se à execução do plano de obras para o fecho triunfal do segundo mandato.
Mas, o que aprisiona o governo e debilita sua liderança política é a crise prioritária, a grande crise dos escândalos, que engrossa a cada dia, em cascata inestancável. Na verdade, o governo não sabe como lidar com as denúncias que se sucedem e parece perdido no nevoeiro poluído que o envolve.
Falta ao governo o único argumento convincente para vetar a CPI: o de que as denúncias foram apuradas ou estão sendo investigadas e os responsáveis punidos. Desculpa que não resiste a um piparote. Das roubalheiras na Sudam às trapaças no Banco do Pará; da corrupção histórica do DNER ao dossiê Cayman ou ao desvio de R$169 milhões das obras inacabadas do Fórum Trabalhista do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, nada chegou ao fim. Todos dormiam o sono da impunidade nas gavetas da cumplicidade burocrática. Saíram da toca cutucados pelas denúncias. Assim, o desgaste é irreversível.

                                                                                                   No Jornal do Brasil

Miro Teixeira

Segundo Tereza Cruvinel, quando começou a ouvir o discurso do presidente FHC, o líder do PDT, Miro Teixeira confessa ter sido, por um momento, transportado no tempo.
- Tive a impressão de estar ouvindo o senador FHC discursar no Senado ou nos palanques da transição, falando contra o autoritarismo, pregando ética e transparência. Se ele avançasse um pouco mais naquele improviso, acabaria assinando nosso pedido de CPI.
Mas de repente, brinca ainda Miro, a figura do presidente ressurgiu em cena apresentando um plano de ação governamental.

Em manchete, O Globo disse que "em um de seus mais duros discursos nos seis anos de mandato, demonstrando profunda irritação, gesticulando muito e levantando o tom de voz, o presidente  FHC partiu para o confronto definitivo com o senador ACM".

- É estávamos novamente  no presente. Ele insistia na contribuição dos inativos, na venda de Furnas e nesta insensata autonomia de um Banco Central que já fez o que fez.
Um bom discurso de FHC tem sempre este dom. O de fazer esquecer que ele não é o seu passado.
                                                                                       
Em O Globo

Ciro Gomes

O pré-candidato do PPS à Presidência da República, Ciro Gomes, disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) é "um ser desprezível". Ele comentava a briga entre o presidente e o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Ciro acusou Fernando Henrique de agir de "maneira covarde" e disse ter denúncias graves de que o presidente "realmente acoberta a corrupção em seu governo".

Ciro propõe que seja investigada a possível quebra de sigilo do painel de votação do Senado e que se comprove ou não desvio de dinheiro do Banco do Pará (Banpará) para conta do senador Jader Barbalho (PMDB-PA). O ex-ministro afirmou que já havia encaminhado ao presidente denúncias de corrupção no governo. "Fernando Henrique é acostumado a utilizar as pessoas até onde pode e depois jogar o bagaço fora", acusou Ciro.
"Agora, Fernando Henrique disse que ACM faz parte do entulho autoritário. Mas ele usou ACM durante seis anos, inclusive para garantir que não fossem apuradas denúncias de corrupção no governo federal na compra de votos para a reeleição do presidente."

Leonardo Boff

Para o ex-ministro Ciro Gomes (PPS) FHC não consegue ser amigo de ninguém. "Isso ocorre porque lhe falta as qualidade de lealdade e de respeito aos que com ele convive: o seu exercício freqüente é o de falar mal das pessoas, esquecendo também que todos falam mal dele".

Tribuna da Imprensa

Acho que a gente devia tirar do Fernando Henrique o título de intelectual. Ele é um político. O intelectual pensa a sociedade a partir de um horizonte de utopia, em que toma a liberdade de dizer o que pensa e como vê as relações de poder: isso faz o reino do intelectual, quer dizer, a partir do ideal ele julga a sociedade. E o Fernando Henrique julga a sociedade a partir de um jogo de interesses, do qual ele é parte importante, e ele assume  o poder dentro de um projeto que acho profundamente perverso, porque não significa nenhuma ruptura da herança de exclusão que teve este país. Os sujeitos históricos, que sempre detiveram o poder de uma forma autoritária, excludente, exploradora, são aqueles que compõem base do governo do qual ele é presidente. Então, ele não representa nenhuma ruptura, ele consagra, com ares de intelectual, que considero falso, uma nova forma de dominação da sociedade brasileira. Então, acho que a gente devia destruí-lo como intelectual, considerá-lo político, com todas as virtudes de um político, que é pensar sempre numa intenção, isto é, numa segunda intenção. E, por isso, cheio de malícia.

É um projeto de poder em que ele se beneficia. Mas tem de qualificar esse poder oligárquico, excludente, da história brasileira, e ele não colaborou em nada para modificar isso. E aí penso que ele traiu a todos nós, porque depositamos na lucidez do intelectual, do sociólogo que conhece o mecanismo do poder, a esperança de que pudesse interferir e dar uma marca diferente. E ele não fez.

A construção teórica dele, que utilizamos na Teologia da Libertação e nos ajudou a ver o mecanismo do subdesenvolvimento, nos fazia entender que era possível uma ruptura. Quer dizer, um desenvolvimento auto-sustentado, que respondesse às demandas históricas daqui e que, por isso, implicava uma certa distância com os centros hegemônicos – isso estava dentro da construção teórica dele. E vejo que ele renunciou a essa convicção, ao nível da economia brasileira, e essa inserção do Brasil no mercado mundial ele discute sem receios de comprometer a soberania. Ele não tem preocupação de ter um projeto para esse povo. Projeto nacional, um país com uma situação geopolítica fantástica, uma biodiversidade fabulosa, experiência cultural singular, um país multiétnico, multicultural, quer dizer, isso vale no diálogo mundial e ele sabe fazer, porque acho que não ama suficientemente este povo, ele ama o poder.

Transcrito da Revista Caros Amigos, edição especial Grandes Entrevistas/Dezembro de 2000

Chico Buarque de Hollanda, Maria Victória Benevides, Miguel Arraes, Guido Mantega, Dora Kramer, José Arbex Jr., Correio da Cidadania, Delfim Netto, Maria da Conceição Tavares, João Ubaldo Ribeiro, Aloizio Mercadante, Osiris Lopes Filho, Carlos Chagas, Roberto Requião,
Grupo Tortura Nunca Mais.

Luiz Gonzaga Belluzzo, Gal Helio Lemos, II Fórum Social Mundial, Reinaldo Gonçalves, Aloysio Biondi, Celso Brant, Bautista Vidal, Cristovam Buarque, Wladimir Pomar, Celso Furtado, Elio Gaspari.

Almte Gama e Silva, Lula, Luiz Felipe de Alencastro, Verissimo, Millôr Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Rogério Cezar Cerqueira Leite, Angeli, Sebastião Nery.

 José Dirceu, Xico Sá, Carlos Brickmann, Villas Bôas Corrêa, Miro Teixeira, Ciro Gomes, Leonardo Boff.

Leonel Brizola, Paulo Nogueira Batista Jr., Gilberto Vasconcellos, Luís Nassif, Luiz Werneck Vianna, Moacir Werneck de Castro, Mauro Braga e Redação.

Franco Montoro, Glauber Rocha, Aureliano Chaves, Janio de Freitas, Gilberto Dimenstein e Josias de Souza, Barbosa Lima Sobrinho, Cony, Marilena Chauí.

Topo!