Olhem em torno. Onde não há denúncias de roubo ou maracutaias, onde é possível manter um relacionamento honesto, de acordo com padrões importados e em diametral
desacordo com a nossa inata maneira de ser? Segundo ouvimos dizer e há sempre alguém por dentro que nos garante que é assim mesmo, não existe área de atividade no Brasil que não seja marcada pelo falcatruísmo. Pensemos
no governo. Ninguém levantou acusações diretas de falcatruísmo contra o Homem, mas o Executivo que ele relutantemente chefia não está imune, como sabemos. Para o Judiciário, ergamos como ícone o juiz Lalau. E para o
Congresso, ergamos as mãos para o céu, num país onde deputados estaduais ganham mais de um milhão por ano, marajás diversos idem e deputados federais burlam, para comprar carros, um dos muitos auxílios que os deputados
federais recebem (é a gente mais auxiliada do país). E qualquer tentativa de moralização, como está ocorrendo agora mesmo, é detida pelas nossas tradições. Abrir sigilo bancário, nunca, bem como nunca expor a realidade
do Congresso aos intrometidos olhos dos amadores, ou seja, nós, o povo. A polícia? Dinheiro resolve. As punições? Dinheiro resolve. Os atos ilícitos? Dinheiro resolve. Alguém quer apertar os preços de produtos
vendidos por peso ou extensão? Cobra-se o mesmo preço por menor quantidade e fica por isso mesmo. Por mais que se procure, não há lugar onde o falcatruísmo não triunfe no Brasil, desde o esporte às organizações de
caridade a que damos parte do nosso rico dinheirinho. A fama é tão alta que agora o governo chinês busca nosso auxílio no combate à corrupção. Lá eles metem uma bala na nuca de quem é pegado roubando dinheiro público.
Não vamos adotar tal prática, porque, além de ser contra nossa índole terna, representaria um verdadeiro genocídio. E, além disso, o que os chineses, escudados pela dissimulação fu-man-chuniana da Misteriosa
Sabedoria Oriental, querem mesmo é saber o que nós fazemos, para não fazer a mesma coisa lá. No falcatruísmo, ao contrário do futebol, nós sempre somos e seremos os melhores. Resta assumir de vez e ver se perdemos a
timidez e acrescentamos o rótulo de "nacionalista" ao falcatruísmo. Vamos roubar aqui, mas não vamos nos limitar a isso, como agora. Vamos estender o falcatruísmo aos gringos e ver se roubamos deles um
pouquinho também. Para serem eleitos, os próximos candidatos não precisarão mostrar os dedos, como o Homem fez inutilmente. Que mostrem as mãos inteiras, num movimento de arrepanhar, e usem como slogan "todo
mundo metendo a mão!" Nós ainda temos futuro, apesar dos catastrofistas.
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