- O longo depoimento do Sr. Gustavo Franco, na CPI que investiga o Banestado, foi cínico desfiar de mentiras e revelou que a autorização para a remessa ilimitada de recursos, via CC-5, violou todas as normas legais sobre o assunto – principalmente a Lei que criou o Real.
Acreditavam os partidários do Sr. Franco (e é provável que tentem inverter a realidade para favorecer o ex-presidente do Banco Central) que o golden boy
do Sr. Fernando Henrique desse um passeio lógico nos inquiridores – mas o que se viu foi o contrário. Com os documentos nas mãos, o Relator, deputado José Mentor, e os membros da comissão desmontaram um a um de seus argumentos.
Franco começou dando uma aula sobre os mecanismos do câmbio, para confessar que "a realidade da liberalização" havia levado o Banco Central a desprezar as leis e normas anteriores.
Ao
confessar o crime maior – o de violar a lei e as próprias normas do Banco – Gustavo Franco foi obrigado a admitir a materialidade das irregularidades que tornaram possível a evasão de divisas.
Ao
apresentar cópia de um voto da Diretoria do Banco, Franco se disse autorizado, juntamente com o Diretor de Câmbio, a desconhecer a própria regra que editara, em caso de "excepcionalidade", e que isso o isentava da
homologação de suas decisões. O deputado Moroni Torgan mostrou duas versões do mesmo "voto": uma a enviada para o TCU – que já investigava o caso – e a outra levada por Gustavo Franco à CPI. "Uma delas é necessariamente
falsa" – acusou diretamente o parlamentar. "Resta saber qual das duas". Para dirimir as dúvidas, o deputado solicitou à Comissão que requisitasse do Banco Central o documento original, a fim de que fosse submetido a
perícia. "Precisamos saber exatamente quando é que tal documento foi redigido, e isso será fácil, quando tivermos o original em mãos".
Franco argumentou que a sua autoridade para emitir portarias, de um
modo geral, estava baseada em lei de 1952. Isso foi o bastante para que o relator, José Mentor, lesse a lei que criou o real, como nova moeda nacional, e que determinava, em um de seus artigos que a entrada e saída da
moeda de território brasileiro só se fizessem mediante "transferência bancária" com a identificação dos beneficiários, e, em casos excepcionais, fosse ouvido o presidente da República.
Não se sabe ainda
se a grande excepcionalidade de Foz do Iguaçu foi autorizada por Fernando Henrique. De qualquer forma, a lei do Real vedava o transporte de moeda
em espécie pelas fronteiras nacionais. Franco, com a cara mais limpa do mundo, disse que, mesmo sendo em dinheiro vivo, as operações permitidas eram de transferência entre um banco e outro.
Mentor,
exibindo um dos documentos de remessa, retrucou que se tratava de remessas de agência do Banestado para sua sucursal paraguaia, Banco del Paraná, o que desfigurava a operação como transferência. E deu um exemplo: se um
correntista retira de um banco determinada quantia em dinheiro e a leva para outro banco, isso seria uma "transferência bancária"? Gustavo Franco disse que sim, que em seu entendimento houvera "transferência bancária".
O senador Romeu Tuma desmentiu outra das versões correntes, e insistentemente lembrada por Gustavo Franco ao longo de seu depoimento: a de que o próprio Banco Central tivera a iniciativa de denunciar as
irregularidades ao Ministério Público, um ano depois de encontrados indícios de abuso. Tuma esclareceu que essas suspeitas e denúncias com relação à evasão de divisas por Foz do Iguaçu surgiram durante a CPI dos
Precatórios, e foram encaminhadas aos promotores, e que só depois o Banco Central as encaminharia ao Ministério Público.
O mais grave da longa inquirição foi a tentativa de se jogar a culpa na Receita
Federal. Franco declarou que caberia à Receita verificar os carros fortes com dinheiro, e não ao Banco Central. O deputado Sérgio Miranda requereu, então, que se fizesse uma acareação entre os representantes dos dois
órgãos, ambos nominalmente subordinados ao Ministério da Fazenda. A proposta foi imediatamente endossada pelo senador Artur Virgílio. Alguns parlamentares viram na declaração do líder do PSDB uma manobra, a fim de
desviar a atenção dos inquisidores do governo Fernando Henrique, que, como se sabe, controlava mais facilmente o Banco Central do que a Receita, cujo secretário fora indicação do PFL.