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Introdução |
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Ano de 1998, em um outro cabalístico 11 de setembro, ... |
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Encontra-se em formação no Brasil um esquema financeiro fraudulento de muitos bilhões de dólares. A operação, feita sob os auspícios do FMI, é uma
"reencenação" das incursões especulativas do ano passado (1997) no Sudeste Asiático, que levaram ao confisco de mais de US$ 100 bilhões de reservas de moeda forte. Em um só dia, qual seja o de 11 de setembro de 1998, em
meio à turbulência da Bolsa de valores e São Paulo, cerca de US$ 1,7 bilhão deixaram silenciosamente o país. Em outubro, o ritmo da fuga de capitais (canalizada pelo mercado de câmbio exterior) foi, em média, de US$ 400
milhões por dia ...Os cofres do Banco Central estiveram sendo saqueados pelos "especuladores institucionais" com a conivência tácita do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. As autoridades
brasileiras permaneceram negligentes: instruídas pelos seus senhores de Wall Street, não instituíram qualquer controle de câmbio para amenizar o escoamento da riqueza monetária. Segundo Pedro Malan, ministro da fazenda,
as restrições ao movimento de capitais são contraproducentes e conduziriam "a toda sorte de práticas corruptas". Em vez disso, as taxas de juros de curto prazo foram artificialmente aumentadas para 50% para sustentar a
moeda nacional enfraquecida. De acordo com J.P. Morgan em São Paulo, o custo da elevação da taxa de juros para o país (em termos de obrigações adicionais do serviço da dívida) representa a impressionante soma de US$ 5
bilhões por mês. Foi uma liquidação maciça: em vez de frear a fuga de capitais, a estrutura de altas taxas de juros contribuiu para aumentar o ônus da dívida, sem falar do impacto devastador da restrição de crédito para
os produtores nacionais. O país defronta-se com uma falência iminente; o aparelho de estado está sob o controle dos credores externos de Brasília. Além disso, a dívida intrna do Brasil quase duplicou em menos de seis
meses, elevando-se de US$ 145 bilhões, em janeiro, para US$ 254 bilhões, em julho (dos quais US$ 45 devem ser pagos em outubro) ... |
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Sob o comando de Wall Street |
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Os próprios administradores financeiros de Wall Street que decidem a agenda macroeconômica do Brasil são os principais agentes especulativos versados na arte da
manipulação do mercado. Desde julho de 1998, US$ 30 bilhões foram extraídos do Brasil. O resultado da pilhagem foi transferido para cofres privados de bancos ocidentais e para contas em dólares das elites financeiras do
país e no exterior.Esse confisco das reservas de moeda forte da nação é resultado de manipulação política. Os especuladores sabiam que a moeda seria desvalorizada após as eleições presidenciais de outubro. Eles já
haviam convertido seus reais brasileiros em dólares, usando o mercado de câmbio futuro. As condições que possibilitavam o fluxo das reservas de moeda forte para fora do país haviam sido cuidadosamente criadas pelo FMI e
pelo governo de Fernando Henrique Cardoso em consulta aos maiores bancos comerciais e corretoras do mundo. O Banco Central teria de sustentar o real vendendo maciçamente dólares no mercado de câmbio exterior. Em outras
palavras, suas reservas foram saqueadas. Elas etão sendo privatizadas ... |
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A liquidação do Banco Central |
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Esse processo assinala a liquidação do Banco Cental do Brasil. As reservas de moeda estrangeiras do Brasil caíram de US$ 78 bilhões, em julho e 1998, para US$ 48
bilhões, em setembro. E o FMI popôs "emprestar o dinheiro de volta" ao Brasil no contexto de uma operação de resgate ao "estilo coreano", que exigirá finalmente a emissão de grandes quantias da dívida pública nos países
do G-7. As autoridades brasileiras insistiram em que o país "não está sob risco" e que (em vez de "socorro") buscam "fundos de reserva" contra os "efeitos contagiosos" da crise asiática. Por ironia, a quantia
considerada pelo FMI para o empréstimo (US$ 30 blihões) é exatamente a que foi "tirada" do país (no período de três meses) na forma de fuga de capitais. Mas o Banco Central não poderá usar esse dinheiro para completar
suas reservas de moeda forte. O socorro (que inclui grande parte da contribuição norte-americana ao FMI, aprovada pelo Congresso em outubro, de US$ 18 bilhões) destina-se a capacitar o Brasil a cumprir suas obrigações
atuais do serviço da dívida – isto é, para reembolsar os especuladores. Esse valor nunca entrará no país. (leia mais). |
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Negociações de bastidores |
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As operações de socorro aos países do Sudeste Asiático constituem um ensaio geral para esquemas multibilionários a serem adotados nas economias mais importantes
da América Latina. Durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial em outubro, houve discussões por trás dos bastidores entre o ministro da fazenda brasileiro, Pedro Malan e William Rhodes, vice-presidente do
Citibank, representando os credores externos do Brasil. Ironicamente, essas negociações estavam sendo efetuadas num momento em que os líderes do G-7, ansiosos por tranqüilizarem a opinião pública, exigiam o controle
sobre movimentos de capital de curto prazo. Enquanto os ministros das Finanças se reuniam a portas fechadas, os representantes de cerca de 300 bancos globais realizavam sessões paralelas sob os auspícios do IIF
(Instituto de Finanças Internacionais), sediado em Washington. Os bancos globais estavam convidando o FMI "a afiar suas técnicas de vigilância" (em vez de abrandá-las), bem como a fortalecer sua colaboração com o setor
financeiro privado.O presidente Fernando Henrique Cardoso já havia assinado a "carta de intenções", que compromete as autoridades brasileiras a tomarem sólidas medidas de austeridade. Estas exigirão
demissões em massa de servidores públicos federais, bem como fortes restrições a transferências de verbas para os governos estaduais. De acordo com Demóstenes Madureira de Pinho Neto, diretor de operações estrangeiras
do Banco Central, "o ajuste orçamentário será crucial, definitivo e permanente". Para "recuperar a confiança nos investidores" (segundo um representante do Goldman Sachs), o Brasil deverá "superar a meta do ajuste
fiscal" (bem superior à do pacote de austeridade imposto pelo comitê de operações bancárias de Nova York em 1994, durante e implementação do Plano Real). A "terapia econômica" exigida para resgatar "a fé e a confiança"
dos investidores estrangeiros resultará em outras falências de bancos e em desemprego em massa. Sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso, os credores estão no comando da burocracia do Estado, de seus políticos.
O Estado está arruinado e sua massa flaida está sendo levada a leilão sob o programa de privatização... O Plano Real, iniciado em 1994, com as bênções dos credores de Wall Street, chegou a um perigoso ponto crítico.
Começa uma nova fase letal de destruição econômica e social: para assegurar o imediato pagamento das obrigações do serviço da dívida, o FMI exigirá cortes no déficit orçamentário da ordem de US$ 20 bilhões (3% do PIB) a
serem implementados imediatamente após as eleições. Grandes parcelas da economia nacional serão colocadas no bloco de leilão. O programa de privatização (considerado no Plano Real) será acelerado: serviços públicos
como telecomunicações e energia elétrica deverão ser vendidos a preços de barganha para o capital estrangeiro. O governo federal também considerou leis que permitirão a privatização de comapnhias municipais de água e
esgoto. Entretanto, os modestos resultados financeiros dessas vendas permitirão ao Brasil pagar somente uma fração de suas obrigações do seriço da dívida. |
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A retomada da inflação |
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Desvalorizações da moeda após as eleições irão disparar uma espiral inflacionária, levando a nova queda do padrão de vida. Aumentos substanciais dos impostos
sobre as vendas, exigidos na operação de socorro, contrubuirão também para comprimir o poder de compra do real. As elevações propostas nas receitas do estado (a serem obtidas principalmente por meio de níveis mais altos
de taxação e das vendas previstas no programa de privatização) são da ordem de R$ 10 bilhões (US$ 8 bilhões). |
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Empobrecimento e devastação social |
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Num país em que mais da metade da população já vive abaixo da linha de pobreza, os imapctos de um socorro do FMI serão devastadores. Amplos setores da população
brasileira de 160 milhões serão lançados à pobreza abissal. Regiões inteiras do país serão empurradas na recessão. O governo central será enfraquecido: com a iminente fratura da estrutura fiscal federal, os governos
estaduais serão deixados à própria sorte. As regiões do país tornar-se-ão cada vez amis balcanizadas; como na Indonésia e na Coréia, os investidores de Wall Street serão convidados a recolher os cacos. |
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A crise econômica global chega a uma encruzilhada |
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O impacto social na América Latina (onde o programa de ajuste estrutural patrocinado pelo FMI tem sido aplicado por mais de dez anos) provavlmente será muito mais
destutivo do que no Sudeste Asiático. Embora os líderes do G-7 tenham reconhecido formalmente algumas deficiências nas intervenções do FMI, a aplicação do "frote remédio econômico" ainda faz parte da agenda
latino-americana. Em meses recentes, desvalorizações da moeda varreram o continente. No México, excerbada por altas taxas de juros, a dívida interna entrou em espiral. No Peru, uma greve geral em outubro, em protesto
contra as reformas do presidente Alberto Fujimori, patrocinadas pelo FMI, foi brutalmente reprimida por unidades do Exército. Na Argentina, o Banco Central já opera como um "conselho monetário" sob a orientação de seus
credores externos. Numa nova onda de privarizações patrocinadas pelo FMI, os maiores bancos comerciais da Argentina estão sendo liquidados e vendidos a investidores estrangeiros a preços de barganha ...
A crise global chegou a uma encruzilhada perigosa, quando especuladores e credores estendem seus tentáculos para a América Latina: o esquema financeiro do FMI (implementado na Rússia e no Sudeste Asiático) deve ser
infligido às principais economias da América Latina: Brasil, México, Argentina e Venezuela. A "agenda oculta" de Washington deverá assumir o controle de ativos produtivos e recolonizar o continente. |
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Texto extraído do livro A Globalização da Pobreza, editado pela Editora Moderna, 1999, em capítulo escrito
especialmente para a edição brasileira. Traduzido por Mitsue Morissawa. |
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Topo! |
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