De substancial - e revelador -, só a promessa, aos próprios americanos, do que virá para eles com a Área de Livre Comércio das Américas (Alca):
"Vamos vender bens, tecnologia e serviços dos EUA sem obstáculos ou restrições, dentro de um único mercado de mais de 800 milhões de pessoas, com uma receita combinada de mais de US$ 11 trilhões, do Ártico ao Cabo
Horn".Em nenhuma parte ele fala que no desdobramento as barreiras impostas pelos EUA à entrada das exportações latino-americanas - como os produtos metalúrgicos, o suco de laranja e outras do Brasil - vão
desaparecer. Prefere fingir que não existem. E em nenhum momento dá-se ao trabalho de dizer que qualquer coisa negociada pelo presidente George W. Bush poderá ser depois mudada pelo Congresso americano.
Um presidente sem autoridade
Como tem sido lembrado com insistência nesta coluna, os presidentes dos EUA vão a essas cúpulas (e essa já é a terceira) sem o "fast track" - autoridade dada a ele
pelo Congresso para negociar tratados comerciais, o que funciona como garantia de que os parlamentares não poderão depois mudar unilateralmente o que foi acertado com os demais países.
Ora, o hábito recente dos EUA é
o de invalidar tratados que firmam. A negociação do Tratado do Direito do Mar (Law of the Sea Treaty, aqui) levou mais de 10 anos, no âmbito das Nações Unidas. O resto do mundo afinal aceitou muitas imposições
americanas, unicamente na esperança de que Washington reconhecesse um mínimo de direitos para países menores, sem poder de barganha.
Assinado pelo governo do presidente Jimmy Carter, esse tratado foi em seguida
rejeitado pelo governo do presidente Ronald Reagan. Da mesma forma, a negociação do Tratado de Kyoto começara em 1992, na Conferência do Meio Ambiente (a Rio-92). Da mesma forma, o resto do mundo fez concessões para que
houvesse um compromisso dos EUA. E agora o governo Bush puxou o tapete, da mesma forma.
Tudo isso confirma a crescente incompatibilidade dos EUA - e, especialmente, de seus governos mais conservadores - com o sistema
multilateral. Na ONU e nos demais organismos regionais e internacionais, à exceção daqueles nascidos em Bretton Woods, nos quais prevalece não o "cada país, um voto", e sim o peso do voto de qualidade dos EUA
(com o apoio da meia dúzia de parceiros ricos do G-7).
Economistas criticam o Fed
"O novo corte de juros chegou bem a tempo ou tarde demais"? Para a pergunta feita na mídia
desde a surpreendente decisão do Fed (Federal Reserve), a resposta não tem sido uniforme. Segundo facção mais pessimista dos economistas, a nova decisão de Alan Greenspan e demais formuladores da política do Fed chegou
num momento em que a guerra está perdida - e uma recessão este ano já é inevitável.
Mas não foi isso o que sugeriu a imediata reação do mercado - um salto de 399 pontos da média industrial Dow Jones da Bolsa de
Valores de Nova York, ainda na quarta-feira, imediatamente após a decisão. O problema, como destacou uma análise editorial do "New York Times", é que o efeito do tradicional remédio anti-recessão do Fed -
reduzir o custo dos empréstimos para estimular gastos - não é imediato.
"Novos cortes de juros podem se fazer necessários", advertiu o editorial do jornal. Foi a quarta vez este ano, num prazo inferior a
quatro meses, que o Fed reduziu a taxa de juros em meio ponto percentual. E a segunda vez em que o fez sem esperar a data da reunião regular da Comissão de Mercado Aberto (Fomc), que formula suas decisões (a próxima
reunião regular, a 15 de maio, pode até aprovar novo corte).
Os que acharam esse o momento certo para a quarta redução de mais meio ponto percentual na taxa de juros acreditam que a decisão bombeará a economia - virão
mais gastos e os lucros das empresas vão crescer logo. Os pessimistas não se deixam impressionar pela pronta reação da bolsa. Cortes assim, dizem, precisam de meses, às vezes um ano inteiro, para afetar as decisões das
pessoas sobre grandes gastos.
Até lá, acham esses críticos, estará terminada a história da mais longa expansão econômica já acontecida nos EUA. Para eles, já é tarde demais para evitar uma recessão, pois o processo
que leva à redução de empregos já está em andamento. Chegam a tal conclusão a partir dos dados sobre novas encomendas a fábricas e pessoas, que se somam agora às beneficiárias de auxílio-desemprego.
"Toda vez que
esses dois indicadores atingiram juntos os níveis atuais, seguiu-se uma recessão", alegam. O raciocínio dos otimistas, no entanto, é de que uma taxa de inflação singularmente baixa deu ao Fed grande flexibilidade
para reduzir os juros sem a preocupação de que os consumidores e as empresas embarcarão depois numa onda de orgia financeira capaz de empurrar os gastos para uma espiral altista.
Com os juros em queda - prossegue o
raciocínio -, os consumidores comprarão casas, carros e outros bens num ritmo saudável, como continuaram a fazer durante a maior parte do ano passado. As empresas, por sua vez, ficarão mais inclinadas a investir em
novos equipamentos e a admitir novos empregados, na medida em que buscam vender os produtos que se encontram hoje nas prateleiras.