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Antiamericanismo ameaça ALCA

Reinaldo Gonçalves

A ascensão do sentimento de antiamericanismo na América Latina poderá bloquear o projeto de criação da Área de Livre Comércio das Américas. A resistência crescente aos interesses e ideais dos Estados Unidos ocorrerá no futuro próximo não somente na América Latina, mas também no resto do mundo. Há fortes razões subjetivas e objetivas para este sentimento.
No que se refere à subjetividade, o avanço extraordinário da cultura norte-americana, principalmente como produto de exportação, tende a provocar uma reação (ainda que tardia) de diferentes grupos sociais latino-americanos.

Naturalmente, esta reação já existe não somente no domínio da cultura, mas também da produção da informação (o Correio da Cidadania é um bom exemplo). No entanto, o agravamento da situação de crise sistêmica na América Latina pode levar a um processo de reação, que tem no nacionalismo um dos seus fundamentos.

Nacionalismo é, antes de tudo, antagonismo. Esse antagonismo, no plano da objetividade, envolve interesses de um povo, e, no domínio da subjetividade, encerra os ideais desse povo. Neste último, o processo de "refundação" da identidade nacional do oprimido significa ressaltar a diferenciação e, principalmente, o antagonismo frente aos valores e ideais do opressor.

Apesar do avanço do neoliberalismo no plano econômico, seus fundamentos morais são frágeis. É fácil reconhecer os efeitos nefastos da permanência ou agravamento do individualismo mesquinho, da desigualdade, da pobreza e da miséria, do desperdício, da irracionalidade, da injustiça, da tirania impiedosa do mercado, da opressão do capital (pela lógica implacável do lucro) e da mercantilização de tudo e de todos, de corpos, mentes corações. Os fundamentos cristãos existentes na América Latina podem construir a base de valores e normas morais que se contrapõem radicalmente à "lógica do vencedor" e à "ânsia de riqueza, glória e poder". Ademais, fundamentos próprios de projetos de orientação socialista, como a igualdade, a cooperação, a solidariedade, bem como a luta incessante pela liberdade, dignidade e felicidade, podem reforçar ainda mais a rejeição a valores e normas morais que são próprios do capitalismo.

No domínio da objetividade, há três razões para a ascensão do antiamericanismo na América Latina. Estas razões envolvem problemas de desempenho, conduta e estrutura. A primeira refere-se à questão de desempenho dos países latino-americanos, não somente na esfera econômica, como também nas esferas social, política e institucional. A maior integração desses países com a economia norte-americana (por meio da Alca ou de qualquer outro esquema) implicará em uma abertura mais ampla e profunda. Esta abertura transcenderá a questão do comércio de bens e atingirá as dimensões produtiva (desnacionalização), tecnológica (dependência e apartheid), monetária (dolarização) e financeira (maior endividamento externo).

O resultado será o aumento da já elevada vulnerabilidade externa dos países latino-americanos e, portanto, crises cambiais recorrentes. Políticas de ajuste de balanço de pagamentos, orientadas para o pagamento do passivo externo, causam sérios problemas econômicos e sociais. Desemprego, degradação das contas públicas, aumento do tráfico de drogas e violência provocam deterioração política e institucional. O aumento da vulnerabilidade externa coloca a região em uma trajetória de desempenho medíocre. Portanto, o antiamericanismo significa combate e antagonismo a um projeto do governo dos EUA, que compromete o desempenho futuro da América Latina.

O antiamericanismo também será motivado pela conduta do governo norte-americano. Trata-se, aqui, do antagonismo a políticas e ações dos EUA que agridem e prejudicam grupos sociais, países ou, mesmo, o conjunto da humanidade. Cabe mencionar a recente rejeição do Tratado de Kyoto sobre poluição do ar, a hostilidade à criação de um tribunal internacional sobre crimes contra a humanidade, o embargo a Cuba, o Plano Colômbia, o abuso no uso de leis de propriedade industrial e os ataques unilaterais a outros países.

A estrutura concentrada de poder mundial deverá resultar em um crescente antiamericanismo. A hegemonia norte-americana, com seu poder concentrado, remete-nos ao clássico problema do balanço de poder. A inexistência de poder compensatório dá lugar a políticas e ações arrogantes, discricionárias, injustas, irresponsáveis e violentas. Neste sentido, processos de cooperação (inclusive, na área militar) tenderão cada vez mais a envolver países com potencial estratégico (grandes potências européias, China, Índia, Rússia e outros). Para que o Brasil entre nestes processos, é preciso, antes de mais nada, que faça uma limpeza na sua diplomacia cortesã e ineficaz, reduza significativamente sua vulnerabilidade externa e implemente uma política externa independente.

Texto publicado no www.correiocidadania.com.br
Reinaldo Gonçalves
é economista, professor da UFRJ, autor de "O Brasil e o comércio internacional – transformações e perspectivas", Editora Contexto
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