O papel da imprensa ocidental na controvérsia em torno do
Vietnam
tem sido importante e revelador. Foi a partir dos jornais do Ocidente que eu deduzi, pela primeira vez, a responsabilidade dos Estados Unidos e foi também através das mesmas reportagens que comecei a aperceber-me do caráter bárbaro dessa guerra.
Anteriormente, Momer Bigart, destacado correspondente do New York Times, referira-se à "cega brutalidade" da guerra. Num artigo publicado em 25 de Julho de 1962, Bigart afirmava:
Os conselheiros americanos assistiram à execução sumária de prisioneiros do Viet Cong. Encontraram corpos carbonizados de mulheres e crianças em aldeias destruídas por bombas de napalm".
Na verdade, o
emprego de produtos químicos na guerra do Vietnam já havia sido relatado pelo New York Times, no dia 1 de Janeiro de 1962. A 26 do mesmo mês e ano, o mesmo jornal foi ao ponto de classificar de "programas
de destruição das culturas" o emprego de produtos químicos nos campos de mandioca e de arroz do Vietnam do Sul.
Apesar de muitos destes artigos altamente reveladores aparecerem enterrados nas páginas
interiores dos jornais, uma leitura mais cuidadosa e diária da imprensa ocidental tornou possível determinar o caráter desta guerra, com base em testemunhos e documentação que não poderiam ser facilmente desmentidos. O
método que adotei ao aceitar tal material foi o conhecido processo de "a prova contra o interesse". Parti do princípio de que o New York Times, nada ganhando com tais artigos, certamente tinha por único
motivo o desejo de publicar um relato verdadeiro. Dificilmente alguém se porá a forjar testemunhos e provas contrários aos seus interesses.
Em breve descobri, porém, que alguns jornais, mesmo publicando
fragmentos de informação repletos de horrores, não tinham qualquer intenção de elaborar uma visão coerente da guerra com base nesses artigos, mas possuíam realmente a intenção de impedir os outros de fazê-lo. A imprensa
bem informada sabia que algo de seriamente mau se passava com aquela guerra, contudo limitava-se a comentários anônimos e a uma crítica superficial. Este procedimento preservou a sua posição "respeitável" mas
preparou o terreno para um posterior volte face, quando a primitiva atitude ficou largamente desacreditada. (Quem considerar isto uma descrição forçada do modo como a imprensa exerce o seu ofício, faria bem se
recordasse a atitude da imprensa para com os opositores noutros campos -- por exemplo, para com os primeiros discordantes do relatório da Comissão Warren).
Repetidas vezes, a imprensa adota um tal comportamento
vergonhoso em consequência da passividade do público. A maior parte das pessoas não têm acesso aos fatos em assuntos que lhe despertam suspeitas nem, tampouco, dispõem de fontes que lhe permitam reunir informações de
maneira independente. Mesmo conseguindo vencer estes obstáculos consideráveis, continua a não ter meios de comunicar ao público as suas descobertas. Procurei superar tais dificuldades por três modos: em primeiro lugar,
através de um estudo completo da guerra tal como ela é relatada em publicações ocidentais, vietnamitas e de outra proveniência; em segundo lugar, enviando regularmente observadores, por intermédio da Fundação Bertrand
Russell para a Paz (Bertrand Russell Peace Foundation), a fim de fazerem grandes percursos pela Indochina e regressarem com relatos em primeira mão; e em terceiro lugar, erguendo a minha voz sempre que possível.
Entretanto, aprendi certas regras que devem ser respeitadas ao ler-se os jornais:
1. Ler nas entrelinhas.
2. Não subestimar nunca o mal de que são capazes os homens do poder.
3. Identificar o
calão "terroristas" em oposição a "ações de polícia" e fazer a respectiva tradução, sempre que seja necessário.
Os leitores já experimentados na leitura dos jornais podem dar-se ao trabalho
de compilar os seus próprios glossários de termos usados pelo "nosso" lado e pelo lado "deles". |