Nunca tinha havido programa tão abrangente para atacar o problema da pobreza pela raiz, para oferecer mais oportunidades a quem começava a vida, para
reabilitar os que tinham sido deixados de lado, e para habilitar as pessoas dependentes a proverem o próprio sustento. As intenções eram as melhores possíveis. Mas sabemos qual é a estrada que está pavimentada de boas
intenções.A guerra contra a pobreza era o coroamento da visão liberal da sociedade — e dos programas governamentais como solução de problemas sociais. As desastrosas conseqüências fizeram da palavra "liberal" uma
desvantagem política tão grande que até hoje candidatos com longo histórico de posições esquerdistas evitam ou negam essa designação.
De acordo com a visão liberal, as favelas são sementeiras do crime. Mas projetos
habitacionais recém-inaugurados se tornaram quase de imediato novos pólos de criminalidade e rapidamente degeneraram em favelas. Muitos precisaram ser posteriormente demolidos. Infelizmente, as suposições que havia por
trás desses projetos não foram demolidas, e sobrevivem em outros programas desastrados.
Durante anos os índices de casos de gravidez e doenças venéreas na adolescência vinham caindo, antes que as novas atitudes
sexuais dos anos 60 se espalhassem rapidamente pelas escolas, com ajuda de recursos provenientes da guerra contra a pobreza. Essas tendências de queda de repente se inverteram e dispararam.
Os índices de homicídio
também vinham caindo, ao longo das décadas, e em 1960 correspondiam a pouco menos da metade do que tinham sido em 1934. Começaram então a ser aplicadas as novas políticas dos anos 60 para sanar as "causas básicas" do
crime e criar novos "direitos" para os criminosos. Os índices de crimes violentos, incluindo homicídio, dispararam.
A família negra, que sobrevivera a séculos de escravidão e discriminação, começou rapidamente a se
desintegrar no estado do bem-estar social liberal que subsidiava a gravidez fora do casamento e transformava o que era um resgate de emergência num modo de vida.
Programas sociais do governo, como a guerra contra a
pobreza, eram vistos como forma de reduzir os motins urbanos. Esses programas cresceram rapidamente nos anos 60. Os motins urbanos também. Posteriormente, na administração Reagan, denunciada por não fomentar programas
sociais, a incidência de motins urbanos diminuiu.
Nem a mídia nem a maior parte das nossas instituições de ensino põe em dúvida as premissas da guerra contra a pobreza. Até mesmo conservadores costumam atribuir a
esses programas a maior parte do progresso obtido por pessoas de baixa renda.
Por exemplo, a geralmente arguta revista trimestral "City Journal" diz, em seu último número: "A partir de meados dos anos 60, a condição
da maioria dos negros americanos melhorou acentuadamente."
Isso é completamente falso e enganador.
O crescimento econômico dos negros começou na década anterior, antes de serem postas em prática as leis e as
políticas que seriam responsáveis por essa melhora. O número de negros que saíam da pobreza não cresceu — repito, não cresceu — com mais rapidez nos anos 60.
Os índices de pobreza entre as famílias negras caíram de
87% em 1940 para 47% em 1960, numa época em que praticamente não houve leis importantes de direitos civis ou programas de combate à pobreza. Caíram mais 17% na década de 60 e um por cento nos anos 70, mas essa
continuação da tendência anterior não foi inédita nem pode ser arbitrariamente atribuída a programas como a guerra contra a pobreza.
Em diversos ramos que exigem mão-de-obra especializada, a renda dos negros em
relação à dos brancos mais que dobrou entre 1936 e 1959 — ou seja, antes da década mágica de 60, quando supostamente todo o progresso teria começado. O crescimento dos negros profissionalmente, e em outras ocupações de
alto nível, foi maior nos cinco anos que precederam a Lei dos Direitos Civis de 1964 do que nos cinco anos subseqüentes.
Assim como boas coisas resultaram dos anos 60, e de muitas outras décadas, desse período também
advieram grandes desastres sociais que continuam a nos afligir até hoje. Muitos desses desastres tiveram início, claramente, nos anos 60.
Mas o que são simples fatos quando comparados a uma visão inebriante?
Suposições liberais — a existência de "duas Américas", por exemplo — estão sendo recicladas neste ano eleitoral, mesmo por candidatos que fogem do rótulo de "liberais".